faina videomusical #23

.
.
Major Lazor (ft. Pharrell): «Aerosol Can» (real. Kyle dePinna)

Mais uma engenhosa demonstração de que o subgénero dos vídeos musicais textuais (ou lyric music videos) têm ainda imensas possibilidades à espera de serem exploradas. A caligrafia e os desenhos são da autoria de Mike Giant.

Damon Albarn (ft. Brian Eno): «Heavy Seas of Love» (real. Damon Albarn & Matt Cronin)

O novo disco (e o primeiro genuinamente a solo) de Damon Albarn é, como já indiciava o título Everyday Robots, uma aguda reflexão em torno da sociedade em rede e do oculocentrismo da cultura digital. É por isso que este vídeo e o anterior têm já, para mim, um lugar especialíssimo na produção videomusical de 2014: aquele em que um artista pop sem aspirações cinematográficas ou videográficas fornece como matéria prima a um realizador imagens recolhidas por si através de dispositivos móveis de comunicação. O futuro, estou convencido, passa por aqui.

tUnE-yArDs: «Water Fountain» (real. Joel Kefali)

Quase tão bom como a Rua Sésamo.

Tobacco: «Streaker» (real. Eric Wareheim)

Eric Wareheim = David Lynch + Andreas Nilsson. Já desconfiava disso aqui, mas agora tenho a certeza.

Jamais deux sans trois

Ainda a propósito do post anterior, acaba de ser disponibilizado mais um fabuloso vídeo musical textual (ou lyric music video) de um projecto musical tuga. Aspecto curioso (e muito meritório) é o facto de We Trust ser o projecto musical de André Tentugal, nome que os leitores deste blogue facilmente reconhecerão pois não me canso de repetir que ele é um dos mais talentosos realizadores de vídeos musicais do nosso país. Apesar disso (ou, se calhar, exactamente por isso), o André faz sempre questão de contratar os serviços de outros realizadores para os vídeos da sua banda. Depois do mega-sucesso do primeiro vídeo (que, à data em que escrevo, já vai com cerca de 750 mil visualizações no YouTube), este segundo vídeo (uma animação de Robert Wallace) tem tudo para lhe seguir as pisadas.

YouTube Rewind 2013

Este ano, o YouTube começou a utilizar o termo trending para classificar e calcular os seus vídeos mais populares, utilizando supostamente para isso não apenas o número de visualizações, mas também o das partilhas e o de pesquisas no portal. A coisa até parece fazer sentido, mas não prima pela transparência. Aliás, a coisa apenas será transparente caso o portal utilize, de facto, uma fórmula para calcular os vídeos mais populares. Se assim é, por que raio não torná-la pública? Parece-me óbvio que a divulgação da fórmula poderia dar origem a uma discussão muito interessante (eufemismo) em torno da forma como a malta do YouTube valoriza cada um dos indicadores (views, shares e searches) na sua definição de “popularidade” (ou trending). Intrigado, acabei por formular essa pergunta no Quora. Pode ser que haja mais alguma novidade nos próximos dias.

Quanto ao ano 2013 deste absoluto vórtice audiovisual, o mínimo que se pode dizer é que se verificou uma consolidação da importância do formato videomusical na actual paisagem mediática digital. Nesta lista de reprodução (Top 10 Trending YouTube Videos in 2013), 3 são vídeos musicais (entre os quais o primeiro lugar) e outros 3 utilizam a música de forma proeminente. Na lista dos vídeos musicais mais populares (ah pois é, o YouTube apenas fez duas playlists no seu balanço anual e a dos vídeos musicais é uma delas), gostaria de destacar duas curiosidades que me interessam particularmente: o facto de surgirem na lista dois exemplos flagrantes de duas das novas tendências da videomusicalidade que detectei na minha tese: um vídeo musical textual (ou lyric music video) e um diaporama videomusical.

Nos próximos dias, tenciono publicar a lista habitual dos meus vídeos musicais favoritos do ano. Até lá, podem sempre rever a do ano passado.

Vídeos musicais textuais: uma breve sinopse histórica

Isto é giro e instrui o cidadão, porém:

1) A parte introdutória invoca argumentos falaciosos para as editoras gostarem deste novo género videomusical: é falso que um vídeo musical textual seja sempre de mais fácil, rápida e barata execução do que um vídeo musical convencional e não há razão nenhuma para uma editora ou um projecto musical querer separar os vídeos oficiais dos não-oficiais até porque estes últimos é que são mesmo de borla;

2) Os precursores históricos são bem sacados mas descontextualizados: «Subterranean Homesick Blues» (1967) de Bob Dylan foi originalmente uma sequência do documentário Don’t Look Back de D.A. Pennebaker (filmado em 1965 mas exibido em 1967) e tanto «Sign O The Times» (1987) de Prince e «Praying for Time» (1990) de George Michael foram encomendados pelas editoras dos artistas perante a recusa de ambos em participar na produção dos respectivos vídeos musicais;

3) A distinção entre vídeos amadores e profissionais no actual contexto mediático digital é anacrónica;

4) Dar a entender que existe uma “competição” entre o material promocional produzido oficialmente pelas editoras e o oficiosamente produzido pelos fãs é, novamente, uma falácia (mas aqui o rapaz até é capaz de ter razão pois não deve faltar por aí muita cabecinha pensante no negócio da música que pensa o mesmo);

5) A presença de erros ortográficos ou de transcrição nos vídeos musicais textuais raramente é um acaso, mas sim uma voluntária homenagem aos não menos voluntários erros incluídos nos cartazes desenhados por Dylan na famosa sequência referida em 2);

6) Finalmente, é lamentável que não se fala na óbvia relação entre os vídeos musicais textuais e a progressiva convergência do artwork dos discos para o formato videomusical.

Arcade Fire: Reflektor

Ora aqui está: os Arcade Fire acabam de disponibilizar o seu novo disco na íntegra no YouTube através de um vídeo musical textual (lyric music video). Ou melhor: uma série de vídeos musicais textuais cujas imagens foram retiradas do filme Orfeu Negro (1959). Como não podia deixar de ser, este exercício de sobreposição funciona lindamente ou não fossem as imagens da obra-prima de Marcel Camus hóspitas a qualquer música dançável – como é, indiscutivelmente, a deste Reflektor. Se forem ao YouTube, podem mesmo, no separador “Sobre”/”About”, aceder directamente a cada um dos temas que perfazem o disco com um mero clique.