Publicidade retroactiva

Ainda a propósito disto e disto, isto é, a propósito das diferentes formas que estão actualmente a ser exploradas para fazer rentabilizar os vídeos musicais, chega-me uma notícia que, confesso, me deixou perplexo: a implementação de publicidade retroactiva no formato videomusical.

A engenhoca é fruto de uma parceria entre o vevo (a versão videomusical do YouTube que resulta de um acordo entre a Google Inc, a Universal, a Sony e a Abu Dhabi Media) e a Mirriad, nome da empresa que desenvolveu a tecnologia que apoda de “native invideo advertising”. A primeira vítima é este vídeo de Aloe Blacc com cerca de 8 milhões de visualizações (como o vevo não está disponível em Portugal, estamos – para já, meus caros, para já – livres desta inovação tecnológica):

Antes e depois do vídeo musical de Aloe Blacc

Antes e depois do vídeo musical de Aloe Blacc

.
Assustador, não é? É um pouco como utilizar o digital para re-escrever a história das imagens em movimento e fazer desancorar os utilizadores de todo e qualquer contexto que não seja o agora-aqui-assim. Apesar disto poder ser paranóia minha (e é, mas não só), acho tudo isto, de facto, assustador. Está-se mesmo a ver o que virá a seguir: publicidade retroactiva personalizada que terá em conta os nossos perfis digitais para colocar em tempo real nos mais variados conteúdos mediáticos que consumimos mensagens das marcas em relação às quais somos mais sensíveis (ah dizes que gostas de correr no facebook? então toma lá anúncios da Nike e da Asics em todos os vídeos musicais que vais ver nos próximos dias!).

Creepy shit.

Anúncios

Dados videomusicais 2013

No preciso momento em que estou a dar os últimos retoques na minha tese de doutoramento (coisa para ficar fechada esta semana), acabam de sair alguns dados vertiginosos sobre o consumo videomusical digital em 2013.

O número de Março da edição norte-americana da revista Wired inclui, nas páginas 86 e 87, uma infografia (indisponível na edição online da rubrica How To Find Music, mas podem consultar um snapshot que tirei do mesmo a partir da versão iPad aqui) em que se refere que em 2013 foram visualizados mais de 400 mil milhões de vídeos musicais no YouTube. Apesar de saber que a Google Inc tem sempre muita parcimónia em libertar este tipo de dados, a verdade é que me causa alguma perplexidade o facto de não ter encontrado (à excepção deste tweet) qualquer outra referência a este número na Web. Já entrei em contacto com a Wired para saber onde foram sacar esta informação e aguardo pacientemente uma resposta. O número é, de facto, impressionante e demonstra bem a furiosa popularidade do formato.

Uma potencial indicação da verosimilhança deste dado astronómico pode ser encontrada nesta notícia da Bloomberg, onde se refere que 55 mil milhões de vídeos musicais foram visualizados o ano passado no Vevo (como sabem, aqui em Portugal, o Vevo não está disponível e resume-se a um mero canal do YouTube). Ora, este ratio de 13,75% do Vevo sobre o total dos vídeos musicais visualizados no YouTube sounds just about right to me, apesar de estar convencido que a importância do Vevo ainda assim está infeccionada devido à forma conservadora com que o YouTube considera o que é um vídeo musical: apenas os vídeos musicais oficialmente reconhecidos pelas respectivas bandas e/ou editoras.

Ou seja: o Pandora, o IHeartRadio, o Grooveshark, o Spotify, o Slacker e o Rhapsody estão longe, muito longe, de fazer sombra ao YouTube no domínio do consumo (video)musical na rede.

Sobre as estratégias da indústria discográfica na Web videomusical

Já tive a oportunidade de abordar aqui as profundas alterações que a emergência das plataformas digitais introduziu no mercado discográfico: na última década, o surgimento e crescimento das vendas digitais ainda apenas representam 30% de um total em queda abrupta (-60% no mesmo período).

Distribuição das vendas mundiais da indústria discográfica em 2011

Ao nível da distribuição das vendas pela editoras, as principais alterações verificadas nas últimas décadas também podem ser resumidas em poucas linhas.

Das “Big 6” que dominavam a indústria na década de 80 (EMI, CBS, BMG, PolyGram, Warner e MCA), passou-se para um “Big 4” formado pela Universal Music Group (anteriormente denominada MCA que se fundiu com a Polygram em 1998), Sony BMG (resultado da compra da CBS pela Sony em 1991), EMI Group e Warner Music Group.

Há pouco mais de um mês, a Universal comprou a EMI, dando origem a um mega-grupo que, no futuro, poderá chegar a uma quota superior a 40% do mercado. Ou seja, doravante, as majors são apenas três: a Universal Music Group (que comprou a EMI em 2012), a Sony Music Entertainment e a Warner Music Group.

Esta política de fusões e aquisições, como é óbvio, não foi suficiente para camuflar um facto inegável: o de terem sido as editoras independentes as únicas a terem conseguido subir significativamente as suas vendas, sobretudo no segmento dos álbuns (onde, no primeiro semestre de 2011, lideravam com uma quota de 31,2%).

Sobra ainda uma pergunta (particularmente pertinente no âmbito do meu projecto de investigação): qual foi a estratégia seguida pelas majors no campo da videomusicalidade digital?

De uma maneira geral, business as usual, isto é, os principais grupos discográficos procuraram adaptar às plataformas digitais o modelo de negócio que tinham com a MTV na era televisiva do vídeo musical e que fora tão próspero nas décadas de 80 e 90. Mas com uma diferença significativa: pela primeira vez, verificou-se uma cisão.

A Warner acabaria por ser a única a manter-se (pelo menos temporariamente) fiel à MTV e a licenciar todos os seus vídeos musicais ao portal MTV Music criado, tarde e a más horas, em Outubro de 2008 (o portal viria a ser rebaptizado “MTV Hive” em Janeiro de 2012). Por sua vez, duas das majors (Universal e Sony) uniram-se à Abu Dhabi Media para criar, com tecnologia fornecida pela Google Inc. (com a qual partilham as receitas publicitárias), o portal Vevo em Dezembro de 2009. O facto de o Vevo estar “apenas” disponível nos Estados Unidos, Canada, Reino Unido, República da Irelanda, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul e Brasil faz com que em outros países (como Portugal) a identidade do portal seja indissociável do YouTube, surgindo meramente como um dos seus canais. Até Setembro deste ano, o Vevo disponibilizou os vídeos musicais não apenas das duas majors que são co-proprietárias do portal, como os da EMI. Após a referida compra da EMI pela Universal, todos o material videomusical do Vevo passou a ser exclusivamente propriedade dos dois mega-grupos discográficos que detêm o portal (Universal e Sony).

Que avaliação se pode fazer destes dois portais?

Do ponto de vista financeiro, sabe-se que o Vevo gerou em 2011 receitas na ordem dos 150 milhões de dólares. Se é verdade que 0,0043 dólares por visualização é melhor do que nada, as majors teimam em ignorar a enorme impopularidade do Vevo junto dos utilizadores das plataformas digitais (facto bem legível em inúmeros comentários do YouTube), devido à sua agressiva política de colocação de anúncios.

Quanto ao MTV Hive, o portal é um hino a tudo aquilo que um serviço on-line não deve ser em termos de acessibilidade, usabilidade e desejabilidade, sobretudo comparado com a navegabilidade e o enorme arquivo videomusical do YouTube. Tendo em conta o facto de não haver qualquer informação disponível sobre os termos do acordo firmado entre a Warner e a MTV relativo ao licenciamento dos seus vídeos musicais, o efeito mais visível desta parceria foi, novamente, a enorme impopularidade da editora quando, em 2009, decidiu retirar os seus vídeos musicais do YouTube. A Warner viria a arrepiar caminho alguns meses depois, mas o mal estava feito e ainda hoje é comum aceder a hiperligações mortas no YouTube cujos vídeos foram retirados a pedido da editora.

No fundo, a estratégia seguida pelas majors foi a mesma: explorar financeiramente o formato (no Vevo e no MTV Music e, mais tarde, no YouTube), independentemente do efeito que esta decisão teria (e teve) na sua imagem junto dos seus potenciais clientes (os utilizadores). Do ponto de vista da popularidade, o Vevo e o MTV Music estão igualmente muito longe de ameaçar a hegemonia do YouTube no campo da videomusicalidade, como o denota esta simples pesquisa comparativa dos termos “YouTube Music”, “Vevo” e “MTV Music” no Google Trends:

A corroborar este gráfico, está ainda o facto de os os canais do Vevo (Universal e Sony) e da Warner serem os mais vistos do YouTube. Como é óbvio, tal se deve sobretudo ao facto de a enorme popularidade do formato videomusical e da massa crítica do YouTube conseguirem ainda disfarçar os efeitos da crescente impopularidade das editoras junto dos utilizadores.

A principal conclusão a retirar é a seguinte: contrariamente às editoras independentes que permitem livremente o acesso e a manipulação por parte dos utilizadores do seu acervo videomusical, os três grandes grupos da indústria discográfica (Universal, Sony e Warner) teimam em tentar replicar anacronicamente na emergente paisagem mediática digital o outrora lucrativo modelo de negócio que exploraram com a MTV nas décadas de 80 e 90. O balanço, à data, é o seguinte: as vendas e a popularidade das editoras independentes estão em alta e as das majors em quebra contínua. Apesar de a Universal, a Sony e a Warner terem conseguido obter dividendos com a criação do Vevo e com as parcerias celebradas com o YouTube e a MTV Music, a verdade é que estas receitas videomusicais estão longe, muito longe, de colmatar as quebras brutais de vendas que as mesmas sofreram na última década. Tudo isto é ainda mais preocupante para as majors se tivermos em conta o facto de a fruição musical estar definitivamente a convergir para a fruição videomusical digital. Isto é: dentro de alguns anos, os vídeos musicais deixarão muito provavelmente de ser um complemento às receitas da indústria discográfica para se tornarem na sua principal fonte de rendimento.

Está visto que, se teimarem no caminho seguido até hoje, o futuro das majors na emergente paisagem digital será (muito) pouco risonho.