Here Comes The George Constanza Time

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Faina videomusical #6

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Metz: «Wasted» (real. Scott Cudmore)

Um dos maiores trunfos dos vídeos musicais reside no facto de ser um formato apto a explorar de variadíssimas maneiras a gama não menos vasta de possibilidades de contaminação da componente musical na visual. Infelizmente, a maioria dos vídeos musicais teimam em ignorar esta mais-valia ou, quando muito, a explorá-la de uma forma previsível através de dois clichés: o sincronismo da edição das imagens com o ritmo da trilha sonora e a ilustração denotativa da sua componente verbal. Felizmente, ainda vão surgindo, de vez em quando, eloquentes excepções à regra. Este vídeo é uma delas.

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Yeah Yeah Yeahs: «Sacrilege» (real. Megaforce)

Um Memento videomusical frenético e impecavelmente concebido.

Health: «Tears» (real. David Altobelli & Jeff Desom)

É com vídeos como este que um gajo percebe a dimensão das portas que a televisão musical e o politicamente correcto fechavam à criatividade videomusical.

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Kurt Vile: «Never Run Away» (Dir. Don Argott)

Num registo totalmente oposto, temos mais um exemplo de um vídeo musical que jamais passaria pela televisão musical. Vernacular, simples, low-budget e intimista. Um perfeito retrato do que hoje considero ser o mais estimulante dos diversos caminhos que o formato poderá explorar no futuro.

Capicua: Medo do Medo (real. Vasco Mendes)

Confesso que não partilho o entusiasmo de muitos pelo flow de Capicua (uma talentosa portuense quem dado cartas na música urbana nacional) ou sequer pela letra deste «Medo do Medo» (que, convenhamos, não prima pela originalidade ou pela agilidade verbal), até porque o seu recomendável disco de estreia está repleto de temas bem mais conseguidos. No entanto, quer o beat de Ruas (insidioso qb) como o sublime vídeo de Vasco Mendes propulsionam este objecto videomusical para aquele patamar raro em que o todo é superior à soma das partes.

Santogold: «Girls» (Weird Days, 2012)

Estreou ontem na HBO a segunda série da fabulosa Girls de Lena Dunham e hoje chegou às plataformas digitais o vídeo musical da contribuição de Santogold para a respectiva banda sonora. Mais vernacular era impossível: girl power de todas as idades numa avalanche de lip-syncs. Simples e eficaz.

Punch-Drunk Surprise

Apesar de esta colagem videomusical de Hsien Lee ter sido carregada para o YouTube há quase 7 anos, apenas a descobri há alguns minutos. É um fabuloso exercício de montagem vernacular que sobrepõe segmentos do mais musical dos filmes de PT Anderson a um dos incontornáveis clássicos dos Radiohead. Não consigo imaginar melhor forma de fechar a semana.

Kitsch vs Camp: uma abordagem hipertextual aplicada ao formato videomusical

kitsch camp
A análise dos casos de estudo do meu projecto de investigação, levou-me recentemente a explorar duas importantes categorias (ou sensibilidades) estéticas surgidas no séc. XX e cuja predominância não cessa de crescer na emergente paisagem mediática digital: o kitsch e o camp.

Entre as diferentes definições atribuídas ao termo kitsch interessa aqui invocar a que utiliza o termo para qualificar produtos artísticos que são esteticamente “deficientes” na medida em que se limitam a copiar (ou imitar) repetitivamente as aparências superficiais da arte através de convenções e fórmulas (2.2 CALINESNCU 1987: 240-249). O termo camp, por sua vez, corresponde a uma sensibilidade estética que valoriza estes mesmos produtos artísticos devido ao ridículo ou ao efeito humorístico que o seu “mau-gosto” provoca nos fruidores.

No seu famoso ensaio dedicado ao tema, a escritora, realizadora e ensaísta norte-americana Susan Sontag começa por enfatizar as suas características (o camp é artificial, ingénuo, apolítico e excessivo), para, logo de seguida, distinguir a sua variante pura da intencional: «pure camp is always naïve […]; intending to be campy is always harmful» (2.2 SONTAG 2001: 282).

Desta forma, o kitsch, como forma ou estilo, enquadra-se na categoria do camp puro, na medida em que não tem consciência do seu “mau gosto”; o camp intencional, pelo contrário, pode ser visto como uma forma subversiva de kitsch que deliberadamente explora as suas características estéticas para provocar um efeito derisório nos seus potenciais fruidores.

A partir destas definições é possível estabelecer correspondências entre as noções de camp puro (ou kitsch) e camp intencional e as variantes imitativas (pastiche) e transformacionais (paródia) das relações hipertextuais previstas no transtextualidade videomusical do modelo de análise do meu projecto de investigação:

modalidades hipertextuais do kitsch e do camp

modalidades hipertextuais do kitsch e do camp

O quadro supra demonstra que, do ponto de vista hipertextual, o camp (no seu sentido restrito ou puro) equivale sempre a uma prática imitativa do kitsch equivalente ao pastiche, enquanto que o camp intencional a uma prática paródica e subversiva do kitsch.

Para tornar isto mais claro, deixo aqui dois vídeos musicais que ilustram, respectivamente, uma prática imitativa (pastiche) e paródica da estética videomusical eighties propagada pela MTV: os de Average Homeboy de Denny Blazin (Hazen 1990) e de Sensual Seduction de Snoop Dog (Melina 2007).

Enquanto que «Average Homeboy» consiste numa prática hipertextual imitativa (ou pastiche) da estética videomusical eighties da MTV que é, de forma não intencional, manifestamente kitsch, «Sensual Seduction» consiste numa prática hipertextual subversiva (ou paródica) que procura intencionalmente apelar à sensibilidade camp dos utilizadores das plataformas digitais.