YouTube Music Awards – rescaldo

Os YouTube Music Awards (YMAs) foram uma valente confusão? Foram, de facto. E isso é mau? Não necessariamente.

As reacções à edição inaugural dos prémios (video)musicais do maior portal de partilha de vídeos da Web foram, e estou a ser simpático, mornas. E é fácil explicar porquê: o horizonte de expectativa deste tipo de eventos remetia para os que a MTV tem vindo a organizar desde a década de 80 (EMAs e VMAs). Se é verdade que essas cerimónias se têm tornado em feiras de vaidades em que o talento e o génio musical são cada vez mais secundários, ninguém pode acusá-los de não serem grandes produções meticulosamente preparadas onde nada é deixado ao acaso. Pois bem, os YMAs foram precisamente o oposto: tudo propositadamente improvisado e em permanente corda bamba, numa estratégia que procurou emular (por vezes, com sucesso) a força da criatividade vernacular que caracteriza o portal. Há aqui um distanciamento estético que chocou ainda muita gente que assistiu a um evento que, por vezes, não conseguiu descolar do formato televisivo.

No que toca ao universo videomusical, a grande novidade foram os “live music videos” realizados por Spike Jonze (o termo é ambíguo e refere-se, no fundo, à produção e transmissão em directo de um vídeo musical). Apesar de a empreitada não ser original (já tinha aqui falado de uma experiência similar em 2011), a verdade é que os resultados foram, por vezes, genuinamente impressionantes. Este, por exemplo, entra já para a minha lista de favoritos do ano:

Mas o melhor momento da cerimónia, foi, sem dúvida, uma curta (“live short film”) escrita por Lena Dunham (criadora da série Girls) que consegue transformar o caos e o ruído de uma discoteca num palimpsesto que desconstrói a noção de interactividade e participação dos novos media digitais.

Também se falou muito no facto de a cerimónia ter apenas atingido um pico de 220 mil internautas ao longo da sua emissão. É relativamente curto, de facto, mas a verdade é que, por um lado, o portal fez muito pouco para divulgar o evento (verifiquei, por exemplo, que muita gente da minha rede social de amigos não estava a par do evento) e, por outro, o live webstreaming não é, de facto, a especialidade do YouTube (nem me parece que venha alguma vez a sê-lo).

Penso que o saldo é amplamente positivo. Tentou-se fazer algo diferente – às vezes, conseguiu-se; outras, nem por isso. Parece-me óbvio que o formato terá de se descolar ainda mais do formato televisivo e da sombra tutelar da MTV e apostar de forma decidida no talento dos seus utilizadores na produção da próxima edição dos YMAs. De uma coisa estou convencido: a edição de 2014 vai superar a deste ano. A ver vamos.

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Clássicos XI: Pharcyde: «Drop» (Spike Jonze, 1995)

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Vídeos musicais 2011: uma selecção #4 (de 5)

Informações sobre esta lista aqui.

Curiosamente, 4 dos 5 vídeos musicais deste post partilham uma característica: a de terem sido criados por realizadores consagrados, sendo mesmo dois deles (Saam e Spike Jonze) figuras cuja obra se confunde com a história do formato.

#10
Duck Sauce: «Big Bad Wolf» (Real. Keith Schofield)
Já falei neste crepe aqui. E triste seria o ano sem um belo vídeo do grande Keith Schofield.

#9
Beastie Boys ft. Santigold: «Don’t Play No Game That I Can’t Win» (Real. Spike Jonze)
Leva ainda mais longe o conceito de animação frouxa do Team America e já falei nesta tarte aqui. Mind you, já é a segunda média-metragem videomusical incluída nesta selecção.

#8
Colourmusic: «You For Leaving Me» (Real. Matt & Oz)
A adulteração do imaginário infantil foi uma das grande tendências da videomusicalidade em 2011 (ver os anteriores clipes dos Mastodon e dos Is Tropical). Mas este foi, para mim, o que levou mais longe a brincadeira.

#7
Tom Vek: «Aroused» (Real. Saam)
De longe, o vídeo musical mais sensual de 2011. Já não me lembro de ver um vídeo realizado por Saam que não adorasse.

#6
James Blake: «Lindisfrane» (Real. Martin De Thurah)
A canção foi uma das minhas favoritas do ano e este vídeo faz-lhe justiça. Apesar de muito escandinavo na sua estética (um das tendências mais irritantes dos últimos anos do formato), a narrativa expande a música para territórios inesperados. De resto, a faixa foi remisturado e expandida para melhor servir as (belas) imagens.

Scenes From The Suburbs (Spike Jonze, 2011)

Está finalmente disponível no HTML a muito aguardada média-metragem que Spike Jonze realizou para o último disco dos Arcade Fire. Para já, o filme está disponível aqui (como legendas em Português e tudo), embora seja previsível que o mesmo vá parar nas próximas horas ao sítio do costume.

Particularmente significativo o facto de a média-metragem ser oficialmente disponibilizada nas plataformas digitais mais de um mês antes da sua edição física (dia 2 de Agosto como parte integrante da reedição de The Suburbs), o que mais uma vez demonstra a furiosa convergência da videomusicalidade na Web Social.

Chamo a vossa atenção para a forma prodigiosa como a música dialoga com as imagens do filme através de um vasto e diversificado conjunto de técnicas que, para além de potencializar experiências de fruição sinestésica, liberta a música do seu mero estatuto de banda sonora.

Podem ainda ler uma entrevista de Win Butler, líder da banda canadiana, sobre a média-metragem aqui.

Médias-metragens: uma tendência da videomusicalidade

Runaway (2010) e Scenes From The Suburbs (2011): dois exemplos eloquentes da recente tendência da videomusicalidade para a média-metragem

À margem da sua produção vernacular, começa a tornar-se evidente uma tendência, mais profissional e empresarial, da criação videomusical nas plaformas digitais: a produção de médias-metragens. As suas características apontam não apenas para uma duração que gravita em torno dos 30 minutos, mas sobretudo na necessidade da existência de uma trama capaz de conferir a este formato em emergência uma certa coesão narrativa capaz de agarrar os seus hipotéticos fruidores. Nesse sentido, estamos bastante próximos de uma versão digital das óperas rock que foram produzidas sobretudo nas décadas de 60 e 70 e que representavam quase o corolário da proliferação de álbuns conceptuais como Tommy dos The Who (1969), The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars de David Bowie (1972), Bat Out Of Hell de Meat Loaf (1977) e The Wall dos Pink Floyd (1979), só para citar os exemplos mais famosos. Curiosamente, a grande diferença nem sequer está nos resultados estéticos, mas no facto deste novo formato em emergência apontar para uma transladação da ópera rock do domínio das artes performativas (ópera) para o das artes cinematográficas no seu sentido lato, ou seja, na gravação e posterior difusão de imagens (neste caso, com sons predominantemente musicais). De resto, um salto similar (mas para o grande ecrã) viria a ser dado nos já referidos Tommy (1975) e The Wall (1982).

Talvez ainda seja cedo para confirmar a dimensão reaccionária do formato, isto é, se estamos perante uma mera reacção à democratização do processo de criação de vídeos musicais nas plataformas digitais e cuja formulação poderia ser: Pois, hoje em dia, qualquer utilizador consegue produzir um videozito com 3 minutos de duração, mas sempre queremos ver se conseguem fazer o mesmo com 30 (a utilização da primeira pessoa do plural não é, obviamente, inocente). O novo formato, de resto, precisa ainda de encontrar o seu público nas plataformas digitais, isto é, utilizadores capazes de se empenharem na fruição substancialmente prolongada de um vídeo musical. Para já, há que registar as quase 9 milhões de visualizações de Runaway (34′) de Kanye West (2010) e o burburinho que está a gerar o trailer de Scenes From The Suburbs de Spike Jonze a partir do último disco dos The Arcade Fire.

 

Mais curiosa e sintomática ainda é a reacção de um utilizador do YouTube (@domlo66) perante a informação de que a média-metragem será editada em DVD em Maio ou Junho deste ano:

When it said “coming soon to DVD” i made a sound like i was being punched in the stomach…

O facto de o comentário ser actualmente o mais popular é uma demonstração cabal de que os utilizadores não estarão particularmente dispostos a consumir um exemplar do formato mais popular das plataformas digitais (vídeo musical) através de um medium tão anacrónico (e oneroso) como o DVD, por muito que o mesmo surja travestido sob a designação de short film. De facto, o reaccionarismo parece andar (ainda) muito por aqui.