Clássicos VII – Daft Punk: «Around The World» (Michel Gondry, 1997)

Quando vi pela primeira vez esta obra-prima que Michel Gondry realizou em 1997 para o tema «Around The World» dos Daft Punk, fiquei de imediato com a sensação de que a visualização do vídeo foi decisivo para a fruição da trilha sonora (que tinha ouvido diversas vezes nas semanas anteriores sem nunca ter sentido qualquer vibração da minha corda sensível). O fenómeno não é peregrino: quantas vezes o facto de gostarmos da componente visual de um vídeo musical cria uma empatia em relação à música? Inúmeras vezes. De resto, é esta uma das funções primordiais do formato: promover e vender um determinado produto musical.

No entanto, a estratégia seguida aqui por Michel Gondry para atingir este objectivo é singular: o de decompor as diferentes componentes musicais e pô-las em movimento com uma precisão que, ao estar em sincronia com a música, potencializa uma torrente de efeitos sinestésicos passíveis de serem fruídos pelos seus telespectadores (e, posteriormente, pelos utilizadores das plataformas digitais). O livro que acompanha a edição do DVD da saudosa Director’s Series dedicado ao realizador francês, inclui as notas de produção de Gondry que são particularmente cristalinas neste seu propósito:

Il présente des robots marchant en rond sur une plate-forme (représentant un disque vinyl), des athlètes montant et descendant des escaliers, des femmes déguisées en nageuses de natation synchronisée (décrites par Gondry comme disco girls) montant et descendant un autre jeu d’escaliers, des squelettes dansant au centre de la plate-forme et des momies dansant au rythme de la ligne rythmique de la chanson. Cet ensemble est censé être une représentation visuelle de la chanson ; les différents personnages représentent un instrument (ou une piste) spécifique. Selon Gondry, les androïdes correspondent à la voix chantée, le physique et la rapidité des athlètes symbolisent la ligne de basse ascendante ou descendante, la féminité des nageuses synchronisées représentent le clavier, les squelettes servent pour les guitares et les momies pour la boîte à rythme. (Fonte)

No fundo, as principais características da componente visual do vídeo musical (repetição, cenário minimalista, movimentos circulares da câmara, movimento mecânico das personagens, iluminação, etc.) não apenas estão em absoluta sintonia com as características da trilha sonora (letra e batida repetitiva, escassez de instrumentos musicais, o «Around» da letra e o movimento circular do vinil – medium por excelência da música de dança electrónica, etc.), como a sua sintaxe é síncrona com a do tema musical. E tudo isto é executado através de uma das características essenciais do trabalho do realizador francês: sem o recurso a efeitos especiais digitais que teriam, sem dúvida, facilitado imenso a produção deste pequeno milagre de subtileza e precisão. No fundo, o facto de utilizar movimentos coreográficos mecânicos executados por bailarinos está igualmente ao serviço do permanente diálogo que as imagens estabelecem com o tema dos Daft Punk que, convirá não esquecê-lo, é um fabuloso exemplo de música electronicamente criada para ser fruída e dançada por seres humanos numa pista de dança.

É difícil sobrevalorizar o lastro deixado por este vídeo na produção videomusical dos últimos 15 anos: não apenas na obra do realizador francês (ver, por exemplo, isto), como em grande parte da produção vernacular que actualmente povoa a emergente paisagem mediática digital que acabaria, de resto, por contagiar alguns vídeos musicais oficiais (ver, por exemplo, os paradoxalmente simples e fascinantes exercícios de coreografia síncrona dos Ok Go).

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Manchester Orchestra: «Simple Math» (Daniels, 2011)

 

Alguns autores que se debruçaram sobre o vídeo musical como Andrew Goodwin (1.1, GOODWIN, 1992), Kevin Williams (1.1, WILLIAMS, 2003), Carol Vernallis (1.1, VERNALLIS, 2004) ou Joachim Strand (1.1, STRAND, 2008) não se cansaram de referir os diversos mecanismos (sincronismo som-imagem, edição cinestésica, lip-sync, etc.) utilizados pelo formato para desencadear potenciais recepções sinestésicas. Nenhum deles, no entanto, teve a felicidade de, ao longo dos seus estudos, se cruzarem com um exemplar tão virtuoso como este vídeo musical realizado pela dupla Daniels (Daniel Scheinert & Daniel Kwan). É pena. Ter-lhe-iam chamado um figo.

Fica aqui registado que este é, até ver, o meu objecto videomusical favorito do ano.

Boards of Canada: «In A Beautiful Place Out In The Country» (Neil Krug, 2007)

Se há uma banda que demonstra que a música não é apenas para ser ouvida, essa banda são os Boards of Canada. Alvos de um culto que consegue ser quase tão fascinante como as capacidades evocativas da sua música, não é de estranhar que, apesar dos manos Michael Sandison e Marcus Eoin apenas terem apadrinhado oficialmente a edição de um (belíssimo) vídeo musical, pululem hoje na rede milhares de vídeos amadores feitos por fãs ansiosos por partilharem as suas experiências sinestésicas. A banda, de resto, foi precursora na prática de legitimar oficialmente a produção vernacular dos seus fãs ao terem promovido, em 2002, um concurso para a criação de vídeos musicais.

Como qualquer sensação estética, a sinestesia audiovisual depende não apenas das características do objecto artístico, mas da sensibilidade ou capacidade neurológica dos seus hipotéticos fruidores. O vídeo musical que vos deixo aqui parece-me cumprir largamente os critérios mínimos para accionar o primeiro factor da equação. Cabe-vos a vós, leitores, aceitarem o desafio de se deixarem levar pelo seu estímulo. A experiência, garanto-vos, pode ser verdadeiramente avassaladora.

James Blake (via Martin de Thurah & Alexander Brown)

James Blake é o nome de que se fala insistentemente um pouco por todos os media que dão voz aos fãs da música independente e electrónica. O disco de estreia só sai no próximo dia 7 de Fevereiro, mas o mesmo acabou por vir parar à Web em finais de Dezembro para gáudio da crítica (ver o caso do Público que não resistiu a dar nota máxima ao disco duas semanas antes da sua saída) e dos que, como eu, se pelam por essas frivolidades. Para além dos 3 EPs que Blake editou o ano passado e que despertaram o interesse dos melómanos, não é fácil sobrestimar a importância dos dois vídeos musicais oficiais que serviram para apresentar os singles «Limit To Your Love» (Martin de Thurah, 2010) e «The Wilhelm Scream» (Alexander Brown, 2011) no conjunto de factores que estão a contribuir para a sua popularidade (só no YouTube, os dois vídeos já acumularam mais de 3 milhões de visualizações). Ambos os clipes, da autoria de realizadores consagrados e internacionalmente premiados, demonstram bem as potencialidades sinestésicas do formato pela maneira como a luz, a textura, os enquadramentos e a montagem se fundem com a voz, a batida, os ecos e os silêncios da trilha sonora, quer utilizando uma linguagem manifestamente cinematográfica (no primeiro caso) ou uma mais impressionista que fica tanto a dever ao vlogging como à videoarte (no segundo). São dois belos e recentes exemplos de como um todo (vídeo musical) pode ser imensamente superior à soma das partes (música e imagens).