Remistura e colagem

Em ponto de açúcar. Música dos Bonobo. Animação da Cyriak.

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The Books: «I Didn’t Know That» (Nick Zammuto, 2010)

Descobri recentemente (shame on me) a obra The Books, um duo nova-iorquino composto pelo guitarrista Nick Zammuto e pelo violinista Paul de Jong. Apesar de a música da banda ser genuinamente singular e imprevisível, a mesma é paradoxalmente simples e conceptual. Gosto particularmente desta descrição de um jornalista da Pitchfork:

Essentially, three different things go into nearly every Books song: there is always a guitar (usually acoustic); there is usually a stringed instrument (either cello or violin or both); and there are always sampled vocal fragments. (Mark Richard-San)

O vídeo que vos deixo de seguida foi realizado pelo próprio guitarrista e é uma soberba transposição visual da música da banda. Novamente, o conceito é paradoxalmente comum e original: um exercício de manipulação e remistura de diferentes imagens gravadas em VHS que vão de aulas de golfe a explosões de carros, passando por testes de airbags e vídeos promocionais editadas em sincronia com a trilha musical. O resultado final é tão pungente que, após a sua fruição, fiquei com a nítida sensação que todas aquelas imagens foram originalmente filmadas no exclusivo intuito de virem a ser um dia a matéria-prima desde soberbo exercício videomusical. Chapeau to that.

Colagens videomusicais

As colagens videomusicais são produções vernaculares (videomusicais) de um vídeo musical em que impera o que John Hartley apoda de “cultura da redação” (redaction culture): «the production of new material by the process of editing existing contents» (2.1 HARTLEY 2008: 112).

A prática de produções artísticas eminentemente redaccionais tem uma vasta tradição em diversas áreas da criação artística, entre as quais se destaca a técnica de “corte e cose” desenvolvida pelo artista plástico Brion Gysin e posteriormente tornada popular pelo cut up writting que o escritor norte-americano William S. Burroughs aplicou, por exemplo, na sua The Nova Trilogy (1961-1964) (2.2 SHEPPARD 2008: 254). No campo musical, a gravação de práticas redaccionais remonta ao famoso Magnetic Tape Music Project (1952) de John Cage, Morton Feldam, Christian Wolff e Earl Brown e à Gesang der Jüngling (1955-1956) de Karlheinz Stockhausen (2.2 PRENDERGAST 2000: 46 e 53) e atingiu uma crescente notoriedade a partir da década de 80 com a proliferação de exercícios de remistura (remixing) e da utilização de citações (sampling) e concatenações (mash-ups) (1.1 AYMAR 2011: 6), que deram origem a clássicos como My Life in the Bush of Ghosts (1981) de David Byrne e Brian Eno ou The Grey Album (2004) de Danger Mouse, um disco pirata (bootleg) que cola a performance vocal de Jay-Z no seu The Black Album (2003) a segmentos musicais retirados de The White Album (1968) dos The Beatles. Dois desenvolvimentos tecnológicos estiveram na base da expansão da cultura da colagem musical (ou mash-up culture, por sinédoque): a abundância de materiais musicais disponíveis gratuitamente fruto da sua convergência digital na Web; e o desenvolvimento de aplicações que tornaram cada vez mais fácil a qualquer utilizador desconstruir e reconstruir esta vasta oferta de matéria-prima musical (2.1 SERAZIO 2008: 81). Na medida em que, como foi referido anteriormente, os artefactos musicais tendem a convergir de forma significativa na Web Social sob a forma de artefactos videomusicais, era inevitável que estas práticas de colagem e manipulação musical (DJing) migrassem para o campo da videomusicalidade (VJing).

As colagens videomusicais podem ser divididas em dois grandes tipos complementares: i) as que colam integralmente elementos oriundos dos três textos videomusicais (letra, música e imagem) de dois ou mais vídeos musicais; e ii) as que colam o texto musical (letra e música) de um vídeo musical com imagens de um conteúdo audiovisual não videomusical.

Exemplos do primeiro tipo de colagens videomusicais podem ser encontrados no vídeo musical United State of Pop 2010 de DJ Earworm (DJ EARWORM 2011), que consiste numa colagem videomusical dos 25 temas mais vendidos naquele ano no mercado norte-americano; em Ecletic Method Goes Phish dos Ecletic Method (ECLETIC METHOD 2009), que cola videomusicalmente 99 temas clássicos da música pop; e ainda no impressionante My Favourite Colour de Kutiman (KUTIMAN 2011) que cola e sobrepõe segmentos de mais de duas dezenas de vídeos musicais vernaculares oriundos do YouTube para criar um único tema (e vídeo) musical:

Por sua vez, o segundo tipo de colagens videomusicais pode ser exemplificado através de dois vídeos musicais vernaculares produzidos pelo mesmo utilizador do YouTube (J. Taylor Helms) – o de My Body Is A Cage (JTHELMS 2007a), que cola o tema musical dos Arcade Fire a uma edição de imagens retiradas do clássico C’era una volta il West de Sergio Leone (1968); e o de All I Need (idem 2007b), que cola a canção dos Radiohead a uma edição de imagens do documentário Microcosmos de Claude Nuridsany e Marie Pérennou (1996):

Apesar de as colagens videomusicais serem eminentemente práticas vernaculares, existem igualmente alguns casos (raros) de vídeos musicais oficiais que seguiram esta tendência. É o caso do de Rapture Riders (ADDICTIVE TV 2006) que consiste numa colagem videomusical encomendada pela EMI para promover a colagem musical (mash-up) produzida pelo DJ britânico Mark Vidler do tema Rapture de Blondie (1981) com Riders on the Storm dos The Doors (1971).

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Em jeito se síntese dos dos três posts que abordam esta temática, o quadro seguinte refere as características transtextuais das três novas tendências videomusicais eminentemente vernaculares analisadas.

As paródias e os pastiches videomusicais configuram-se sobretudo como hipertextos que, respetivamente, transformam e imitam os seus hipotextos, podendo ambas incluir (ou não) citações intertextuais.

Por sua vez, as colagens videomusicais consistem integralmente em exercícios de redação (2.1 HARTLEY 2008) que fazem com que os mesmos se configurem, parafraseando a famosa expressão de Julia Kristeva (2.2 KRISTEVA 1974), como genuínos “mosaicos de citações” audiovisuais.

Never Gonna Fool You Up

O meu último post terminava com uma hiperligação que remetia, inesperadamente, para uma versão em arte ASCII do vídeo musical de «Never Gonna Give You Up» de Rick Astley (Simon West, 1987). Caso tenham clicado no mesmo, parabéns, foram rickrollados.

O Rickrolling é uma das provas mais eloquentes do protagonismo e da universalidade da videomusicalidade nas plataformas digitais. A prática terá surgido em 2007 e consiste em introduzir num texto uma hiperligação aparentemente relevante para o tópico abordado, quando, na realidade, a hiperligação redirecciona inadvertidamente o leitor para o famigerado clipe. A prova da popularidade do Rickrolling pode ser confirmada não apenas no facto da versão oficial do clipe (carregada em Outubro de 2009) estar no limiar das 30 milhões de visualizações e da intitulada RickRoll’D (carregada em Maio de 2007) já ter mais de 44 milhões, como nas inúmeras remisturas e recriações que o vídeo tem sido alvo nos últimos três anos. Permitam-me que destaque um Rickroll interpretado pela bonecada do The Muppet Show, outro que consiste num mashup do clipe com um episódio de Family Guy e, finalmente, o famosíssimo e premiado Barack Roll que nada mais é que um hino à paciência, dedicação e labor dos utilizadores das plataformas digitais.

Como é que se pode explicar a popularidade do Rickrolling? Em primeiro lugar, há que pensar no óbvio: são as possibilidades de interacção do medium (a Web 2.0) que permitem e potencializam a fruição participativa dos seus utilizadores e que fornecem, de resto, o mecanismo fundamental para um Rickrolling: a hiperligação. Depois, convirá não esquecer que o tema de Rick Astley foi um dos maiores sucessos discográficos da década de 80, tendo alcançado o topo das tabelas de venda de 25 países. Finalmente, temos o vídeo musical, absoluto arquétipo do teledisco performativo da década de 80 no que diz respeito ao guarda-roupa, aos cenários, à iluminação, às bailarinas, aos movimento da câmara, à proliferação de planos redundantes e, claro, como não podia deixar de ser, à inolvidável e paradigmática coreografia de Rick Astley. De certa forma, penso que não será descabido considerarmos o Rickrolling uma espécie de emulação da omnipresença do tema no airplay do já distante ano de 1987. Na época, o vídeo musical foi um apêndice relativamente dispensável para o sucesso planetário da canção, tendo a MTV se limitado a acompanhar o seu sucesso radiofónico. Nos últimos 3 anos, graças ao Rickrolling e às virtudes kistch que o tempo acrescentou ao clipe, os utilizadores das plataformas digitais transformaram Rick Astley numa das figuras mais populares do universo dos vídeos musicais: foram, por exemplo, os seus 100 milhões de votos que, em 2008, forçou a MTV a conceder-lhe o hiperbólico prémio dos MTV Europe Music Awards para Best Act Ever.

Se, em 1987, bastava ligar um rádio numa estação qualquer para sermos bombardeados com a canção de Rick Astley, hoje em dia, basta clicar numa hiperligação do HTML mais insuspeito para correr o mesmo risco com o respectivo vídeo musical. E assim, mais de duas décadas depois, uma armadilha musical transformou-se, graças à fruição participativa dos utilizadores das plataformas digitais, numa armadilha videomusical.