Pitchfork’s 50 best music videos of the decade so far (2010-2014)

O título diz praticamente tudo e atesta mais uma vez a importância do formato videomusical na actual paisagem mediática digital: a mais influente e mais lida revista online de música popular publicou no passado mês de Agosto três listas que procuram retratar o que de melhor se pode ver e ouvir na presente década (2010-2014): os 100 melhores álbuns, as 200 melhores canções e, como não podia deixar de ser, os 50 melhores vídeos musicais.

É tudo do melhorio: a lista é ecléctica e o equilíbrio entre géneros musicais é notório. Apesar de ser um leitor assíduo da revista e um doidinho do formato videomusical, a malta da Pitchfork ainda conseguiu me surpreender com um fabuloso vídeo de 2012 que não conhecia. Este:

O vídeo do tema de Todd Terje consiste numa espécie de trailer musicado de um fakumentary (ou mockumentary) intitulado Whateverest e que também deixo aqui de seguida. Ambos foram realizados por Kristoffer Borgli e demonstram bem o nível de sofisticação a que chegou o formato videomusical. Entretanto, o disco do rapaz já cá canta em casa.

Seen Your Video

Recomendo a leitura deste belíssimo artigo de Lindsay Zoladz publicado na Pitchfork que, a pretexto deste evento, faz um interessante (e pessoalíssimo) balanço entre a era doirada do formato videomusical na década de 90 e o seu vigoroso renascimento nas plataformas digitais. Gosto muito desta passagem (negritos meus):

A favorite video was different from a favorite record; you couldn’t possess it, you never knew quite when you’d see it again, and if you tried to remember it later, your imagination had to fill in the blanks. That was part of the frustration, and the fun. […] For better and for worse, what the internet has rendered extinct is that elusive quality the music video experience used to have: the excitement of not knowing what was coming on next, the feeling that you had to fully immerse yourself in a video because you didn’t know when you’d see it again. In the age of YouTube, it’s now the viewer, not the station programmer (or the sock-puppet VJ) calling the shots and deciding what to watch and when to watch it. But isn’t this the sort of breakthrough I was dreaming about back in my home-taping days? Turns out that the downside of instant access to everything all the time is that it often feels like there are too many videos out there to watch – and there’s reason to fear that our average attention spans are whittling down to something shorter than the music video itself.

Como (não) fazer dinheiro com a música na emergente paisagem mediática digital

Ainda a propósito da crise da indústria discográfica e da aparente falta de alternativas de fontes de rendimento para os músicos na emergente paisagem mediática digital, foi publicado um artigo muito interessante (e um tanto ao quanto reaccionário) de Damon Krukowski (ex-líder dos saudosos Galaxie 500) na Pitchfork cujo leitura recomendo. Destaque para a seguinte passagem:

To put this into perspective: Since we own our own recordings, by my calculation it would take songwriting royalties for roughly 312,000 plays on Pandora to earn us the profit of one — one — LP sale. (On Spotify, one LP is equivalent to 47,680 plays.)

Em complemento, recomendo igualmente este artigo publicado no Stereogum de Chris Ruen, autor desta obra bem recente que tenciono ler nos próximos dias. Prometo depois vir aqui contribuir para o debate. Até lá, boas leituras.

MTV (in a nutshell)

Está a causar um certo furor nas redes sociais, um spoof que, a brincar a brincar, vai dizendo algumas verdades sobre as motivações que levaram ao reajustamento (ou reposicionamento) operado pela MTV nos últimos anos.

Os argumentos referidos no vídeo podem ser resumidos da seguinte forma:

– O público-alvo da MTV já não é o mesmo (agora é supostamente sub-18);
– A crise por que tem passado na última década a indústria discográfica (que financiava o principal conteúdo editorial do canal) levou a uma mudança de programação por parte da MTV dos vídeos musicais para os reality shows;
– A música pop passou a ser um bem cujo consumo é eminentemente gratuito;
– Os vídeos musicais migraram da televisão musical para a Web;
– O que resta da playlist videomusical do canal resume-se a um número muito restrito de artistas com projecção planetária;
– A descentralização da programação da MTV dos vídeos musicais para os reality shows iniciou-se há cerca de duas décadas e vai ao encontro do horizonte de expectativas do novo público do canal.

Permitam-me apenas alertar para algumas imprecisões:

– Do ponto de vista etário, o público-alvo da MTV não mudou consideravelmente: o que mudou foi o contexto cultural e sócio-tecnológico dessa faixa etária (14-25);
– Actualmente, as dicas de consumo musical não passam tanto por algoritmos de serviços como os prestados pela Pandora ou o Spotify (para mais limitados a alguns países), mas sobretudo por recomendações interpessoais através das redes sociais e até por alguns portais que substituíram o papel de especialistas outrora assumido pela MTV (ver Pitchfork);
– O YouTube não é apenas o local privilegiado para o consumo de vídeos musicais mas também para o consumo de música tout court (há estudos bem recentes que o confirmam);
– A MTV não é forçada a passar os vídeos musicais de um número restrito de artistas: esta escolha editorial é fruto dos acordos que o canal celebra com as editoras e/ou os artistas;
– Não faz sentido apodar a MTV de “iTunes Music Store TV”: os clientes do iTunes têm uma oferta infinitamente superior;
– Apesar de The Real World ter sido estreado pela MTV em 1992, a descentralização da programação operada pelo canal dos vídeos musicais para os reality shows apenas se tornou visível cerca de uma década depois;
– É uma tremenda falácia dizer que a música pop (e a cultura popular em geral) apenas é valorizada pelas gerações mais jovens: o seu valor mantém-se (e, em alguns casos, aumenta) nas faixas etárias mais elevadas.

Nota

Este blogue anda em sintonia com a Pitchfork. Duas semanas depois de ter aqui postado o novo vídeo de tUnE-yArDs, a edição de Maio da série Director’s Cut é-lhe dedicada e conta com uma entrevista a Merrill Garbus e Mimi Cave. Como é óbvio, vale mesmo a pena ir ler.

Merrill Garbus + Mimi Cave