Faina videomusical #4

.
.
Esta semana, os meus destaques vão para o regresso não de um, nem de dois, mas de três dos meus realizadores favoritos do formato: Keith Schofield, Patrick Daughters e Eric Wareheim. Os três vídeos conseguem a proeza de não apenas apanhar o espectador desprevenido como de reforçar a marca autoral de cada um destes talentosos realizadores.

Darwin Deez: «You Can’t Be My Girl» (real. Keith Schofield)

Já se sabia que não há nenhum realizador mais “meta” do que Keith Schofield. Aqui, ele brinda-nos com um vídeo integralmente feito com imagens de arquivo (ou stock footage) nas quais foi posteriormente inserida a figura de Darwin Deez. É a colagem videomusical mais fabulosa que vi até hoje.

Phoenix: «Entertainment» (real. Patrick Daughters)

Um verdadeiro desvario narrativo que parece ter sido feito para parodiar o recente protagonismo da Coreia no universo dos vídeos musicais.

Beach House: «Wishes» (real. Eric Wareheim)

Leva o prémio do vídeo musical mais lynchiano de todos os tempos.

Vídeos musicais 2011 – uma selecção #5 (de 5)

Informações sobre esta lista aqui.

#5
No Age: «Fever Dreaming» (Real. Patrick Daughters)
Talvez a ideia mais genial para um vídeo musical em 2011 que gravita em torno de uma das mais basilares técnicas cinematográficas: a do enquadramento.

#4
Battles: «Ice Cream» (Real. Canada)
Os espanhóis Canada foram a grande revelação do ano (já falei nestes pasteleiros aqui). E os Battles a banda com o faro mais apurado para contratar realizadores em 2011.

#3
Manchester Orchestra: «Simple Math» (Real. Daniels)
Já falei neste bolo-rei aqui. Não há muito a acrescentar: é o melhor vídeo musical narrativo do ano.

#2
Radiohead: «Lotus Flower» (Real. Garth Jennings)
Também já falei deste bombom aqui. Sem dúvida, a grande surpresa do ano: o Thom Yorke a dar uma de Beyoncé.

#1
PJ Harvey: «The Words That Maketh Murder» (Real. Seamus Murphy)
E aqui está ele: o meu vídeo favorito do ano. É um monumento de subtileza dedicado a um dos grandes discos do ano. Talvez seja um anti-clímax para alguns devido à sua sobriedade, mas a escolha é para mim indiscutível: mais nenhum vídeo musical fez tanto vibrar a minha corda sensível este ano. E serve igualmente para referenciar uma das outras grandes tendências do formato em 2011: as séries videomusicais. Um nome a reter para os próximos anos: Seamus Murphy.

De “Money For Nothing” a “No Money For Everything”

O admirável mundo dos vídeos musicais realizados por fãs

Outra das importantes novidades da convergência dos vídeos musicais nas plataformas digitais é o surgimento de vídeos não-oficiais produzidos por fãs do formato ou dos respectivos projectos musicais (fan-made videos). O surgimento deste género específico de vídeos musicais (isto é: clipes que não resultam do convencional processo de adjudicação de uma editora discográfica a uma produtora videomusical) deveu-se não apenas ao desenvolvimento tecnológico da gravação e edição audiovisual como ao surgimento dos novos canais de distribuição digital e acabaria por ter repercussões profundas no mercado dos vídeos musicais. Em 2000, Steve Reiss e Neil Feineman incluíram na obra Thirty Frames per Second um esquema com 26 potenciais etapas do processo de produção de um vídeo musical envolvendo a editora, o management, o(s) artista(s), o realizador e a equipa de produção:

(1) single; (2) brainstorm; (3) brief; (4) approach; (5) budget; (6) treatment; (7) ideas; (8) booked; (9) storyboard; (10) wardrobe; (11) fitting; (12) idea changes; (13) more money; (14) move date; (15) delivery date; (16) shoot delays; (17) overdue; (18) wrap time; (19) transfer; (20) editing; (21) rough cut; (22) comments; (23) changes; (24) second cut; (25) delivered; (26) on air. (1.1, AYEROFF et al., 2000, pp. 30-31)

Este complexo e moroso processo tem vindo a ser drasticamente simplificado com a convergência do formato e não raras vezes envolve apenas uma única pessoa que filma, edita, pós-produz e disponibiliza o vídeo musical nas plataformas digitais. Algumas editoras, de resto, têm vindo a capitalizar esta criatividade digital ao promover concursos que fornecem a suposta “oportunidade” aos fãs de realizar o vídeo musical da sua banda favorita. Para além da qualidade de alguns dos projectos – ver os casos de Innocence de Bjork (Fred & Annabela, 2007), Weird Fishes dos Radiohead (Tobias Stretch, 2008) e Famous Last Words dos Deerhunter (Justin Marínez & Gilberto Vega, 2009) –, as editoras gastam num prémio simbólico uma ínfima quantia dos orçamentos milionários que alguns vídeos atingiram em meados da década de 90: compara-se, por exemplo, os 7 milhões de dólares de Scream de Michael e Janet Jackson (Mark Romanek, 1997) com os 25 dólares que foram necessários para a irmã do líder dos Ok Go produzir Here It Goes Again (Trish Sie, 2006), um dos mais populares vídeos musicais de sempre das plataformas digitais.

A convergência digital dos vídeos musicais, graças às possibilidades participativas da Web Social, despoletou a tendência crescente da sua produção ser cada vez menos uma indústria para ser um processo doméstico e individual: entre Money For Nothing e No Money For Everything, parecem caber todas as profundas transformações económicas desencadeadas pela convergência dos vídeos musicais, cuja materialização estética vai de conteúdos gerados pelos utilizadores (CGU) próximos de uma estética vernacular punk DIY (Do It Yourself) a videos musicais que, apesar de não serem oficiais, revelam uma elevada sofisticação estética. Compara-se, por exemplo, o vídeo musical do prestigiado realizador Patrick Daughters para «Two Weeks» dos Grizzly Bear (Patrick Daughters, 2009) com o de um utilizador das plataformas digitais para o mesmo tema (Gabe Askew, 2009) – tirando a presença dos elementos da banda, é sinceramente impossível identificar qual deles é o oficial e qual é o fan-made:


No Age: «Fever Dreaming» (Patrick Daughters, 2011)

Este é o mais recente trabalho de Patrick Daughters, um dos mais talentosos realizadores de vídeos musicais da actualidade, para o tema «Fever Dreaming» dos No Age (2011). Deixo-o aqui porque é um exemplo bem recente das genuínas possibilidades de experimentação e da criatividade que gravitam em torno do formato.

O conceito é muito simples, mas paradoxalmente fabuloso e metacinemático e consiste em projectar fisicamente para o espaço cénico uma das mais importantes técnicas cinematográficas: a do enquadramento. Numa primeira fase, um zoom-in da câmara assume propriedades físicas na realidade capturada, empurrando, num movimento concêntrico, os elementos cénicos mais periféricos de forma a caberem nos sucessivos enquadramentos da câmara; numa segunda fase, posterior a um zoom-out, um segundo zoom-in mais rápido vai literalmente destruindo todos os elementos cénicos que vão ficando fora dos sucessivos enquadramentos (reparem, por exemplo, nos pormenores do chapéu do guitarrista e da mão direita do baterista). O clipe termina com um fulgurante plano sequência que leva à dilaceração dos músicos. Está aqui todo um tratado de epistemologia audiovisual pela forma como a observação altera a forma como os objectos são percepcionados.

Tudo isto numa mera sequência videomusical com pouco mais de 4 minutos. Chapeau.

ADENDA (07/02): podem encontrar uma entrevista com Patrick Daughters sobre este vídeo musical aqui. Já agora, fiquem com um elucidativo making of.