“Weird Al” Yankovic: és o maior, caramba!

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Numa semana particularmente importante para mim (more about that later), não pude deixar de achar fabulosa a coincidência de ter sido ontem que o grande “Weird Al” Yankovic conseguiu finalmente chegar ao primeiro lugar da tabela da Billboard.

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Para os mais distraídos, “Weird Al” Yankovic é o genuíno precursor da produção videomusical vernacular que actualmente povoa a rede, o génio visionário que começou logo na década de 80 a parodiar vídeos musicais de temas como o «Like a Virgin» de Madonna (Like a Surgeon, 1985), «Bad» de Michael Jackson (Fat, 1988), «Smells Like Teen Spirit» dos Nirvana (Smells Like Nirvana, 1992) ou «Born This Way» da Lady Gaga (Perform This Way, 2011), só para referir os mais famosos.

É por isso mais do que justo que, no preciso momento em que o formato videomusical é o mais consumido e disseminado na emergente paisagem mediática musical, o “Weird Al” conquiste ao fim de três décadas o primeiro lugar da tabela de vendas norte-americana com (o fabuloso) Mandatory Fun. E como é que ele conseguiu? Como é óbvio, com paródias videomusicais: nada mais do que oito disponibilizadas no YouTube ao longo de oito dias consecutivos (podem vê-los todos aqui). Há de tudo para todos os gostos e, no meu caso, confesso que não há nenhum que não tenha conseguido pelo menos arrancar-me uma valente gargalhada. Deixo de seguida o meu favorito da série. E parabéns Al! O teu sucesso mexeu mesmo comigo, caramba.

ADENDA: isto.

Shreds (paródias videomusicais)

Os shreds são um genuíno género de paródia videomusical vernacular que remonta, pelo menos, a 2007, data em que o utilizador do YouTube StSanders (cognome de Santeri Ojala, um rapaz finlandês) começou a dobrar o áudio de várias performances de bandas rock famosas (podem aceder ao seu imenso legado aqui). No entanto, a prática tornou-se particularmente popular este ano com esta pequena maravilha:

O termo foi originalmente usado para referir o estilo virtuoso e circense de certos guitarristas (sobretudo de heavy metal), tendo sido depois adoptado de forma irónica para qualificar este tipo de paródia videomusical que consiste, precisamente, em substituir de forma sincronizada o áudio original por outro que é baixa fidelidade e desafinado. O meu favorito? Este:

Do pastiche à paródia

kanyerogenEstes últimos dias têm sido pródigos em fenómenos videomusicais. Na semana passada, Kanye West lançou para a rede o seu mais recente vídeo, realizado por Nick Knight, para o fabuloso tema que fecha Yeezus. Ei-lo (no momento em que escrevo isto, o vídeo está perto das 8 milhões de visualizações no YouTube):

Quando o vi pela primeira vez, identifiquei logo um hipotexto. Este:

De facto, este clássico realizado por Jean-Christophe Avery para a obra-prima de Serge Gainsbourg parece ter sido uma óbvia inspiração para o vídeo de Kanye: o (ab)uso do chroma-key, um objecto de desejo feminino sacado à vida privada (Jane Birkin vs. Kim Kardashian), o fétiche motorizado (Rolls Royce vs. mota), o erotismo a roçar o soft porn, etc. Como é óbvio, esta referência é apenas hipotética e resulta do facto de conhecer bem a obra de Serge Gainsbourg e, claro, da minha deformação profissional: sempre que vejo um vídeo musical, procuro sempre estabelecer laços e conexões com outros vídeos, na medida em que acredito que a videomusicalidade reside precisamente nesta complexa teia de relações.

Por sua vez, o utilizador 4chan do canal hiphopheads do reddit utiliza uma informação recolhida de uma entrevista que leu de Kanye West como chave de leitura para uma interpretação (bastante convincente) do vídeo que, novamente, o define como um pastiche, mas com uma diferença: os hipotextos são uma série de estereótipos culturais norte-americanos (negritos meus):

Alright firstly, the confederate flag. Many of you may or may not know that Kanye has put the confederate flag on a number of his new merchandise associated with the Yeezus tour. The reason for this is that he wants to replace a racist symbol with himself. He wants people to start associating it with him, instead of racism, so quite frankly it can’t be used by racists, as it represents a ‘Black Skin Head.’ He has admitted to this. (I’ll dig up the interview if you don’t believe me.)
Now with this in mind, we can continue on to the Bound 2 video. This video presents some of the most stereotypical, if not corny american stereotypes. The desert. The galloping stallions. The beautiful woman. The soft porn. The lone ranger riding his motorcycle into the sunset. And it is all presented in such a simple and uninspiring way that it is almost a mockery of these things. The only thing not stereo typically american here, is the fact that the lone ranger is black.
So why is Kanye doing this? Well it is pretty simple, he is taking White American culture, and he is replacing it with a Black skin head. This is essentially an aggressive cultural takeover that the average person probably doesn’t even realize is happening. Why else would he debut the video on the Ellen show? It is a white american talk show, with a white american demographic. This man is literally destroying white american stereotypes by making them revolve around him. The funniest part is, hardly anyone realises it. Oh and who is white america’s favourite white person? Jesus. Im sure you all get where I’m going with this. (fonte)

Como é óbvio, a maioria dos utilizadores da rede (“the average person”) não apanha estas referências e “limita-se” (coloco as aspas porque não há aqui qualquer juízo de valor da minha parte) a constatar o óbvio: que o vídeo é corny ou “foleiro” e que é difícil ver aquilo tudo e não ficar meio parvo com quantidade de clichés (corny stereotypes) que se conseguem concatenar em apenas 4 minutos. Foi precisamente uma superleitura deste género que motivou a dupla Seth Rogen e James Franco a levar a cabo uma hilariante paródia do vídeo de Kanye West:

O que é particularmente digno de nota neste exercício paródico é, por um lado, a sua simplicidade (uma interpretação dramática caricatural e a substituição de um sex symbol feminino por uma figura masculina que não se enquadra nos estereótipos da beleza masculina) e, por outro, a sua fidelidade (todos os planos são reproduzidos com grande detalhe sem jamais utilizar as imagens de origem).

Pelos vistos, o próprio Kanye West (conhecido pela sua susceptibilidade) achou piada à coisa. Independentemente das diversas leituras que se podem fazer do vídeo original (homenagem, crítica cultural, mensagem política, mera foleirice, etc.) uma coisa é certa: “Bound 2” está a ser um dos temas mais ouvidos esta semana nos quatro cantos do mundo.

The National: «Sea of Love» (Sophia Peer, 2013)

Comparem o novo vídeo dos The National com o de uma banda russa filmado em 1997. Não fosse a faixa musical e o quinto elemento da banda e estaríamos no limiar do pastiche e da falsificação. Assim, estamos perante um exercício paródico que mima com elevado rigor a encenação e performance de um vídeo obscuro que os fãs rapidamente identificaram devido à elevadíssima permeabilidade da Web Social. Uma forma mais simples de dizer tudo isto é recorrer a uma única palavra: homenagem.

Faina videomusical #4

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Esta semana, os meus destaques vão para o regresso não de um, nem de dois, mas de três dos meus realizadores favoritos do formato: Keith Schofield, Patrick Daughters e Eric Wareheim. Os três vídeos conseguem a proeza de não apenas apanhar o espectador desprevenido como de reforçar a marca autoral de cada um destes talentosos realizadores.

Darwin Deez: «You Can’t Be My Girl» (real. Keith Schofield)

Já se sabia que não há nenhum realizador mais “meta” do que Keith Schofield. Aqui, ele brinda-nos com um vídeo integralmente feito com imagens de arquivo (ou stock footage) nas quais foi posteriormente inserida a figura de Darwin Deez. É a colagem videomusical mais fabulosa que vi até hoje.

Phoenix: «Entertainment» (real. Patrick Daughters)

Um verdadeiro desvario narrativo que parece ter sido feito para parodiar o recente protagonismo da Coreia no universo dos vídeos musicais.

Beach House: «Wishes» (real. Eric Wareheim)

Leva o prémio do vídeo musical mais lynchiano de todos os tempos.