Conhecimento vs. fruição

Foi há cerca de dez anos que comecei a familiarizar-me com um instrumento musical. Por insistência de um grande amigo meu, comprei uma guitarra acústica (escolhida por ele) que acabaria por oferecer a outro amigo, pois entretanto comprei outra (não necessariamente melhor, mas bem mais cara). Sou melómano desde que me conheço e a música tem um papel fundamental na minha vida: oiço e compro música a um ritmo incessante, leio sobre ela e tenho vindo a desviar o meu percurso académico da literatura (outra paixão) para o estudo da sua dimensão sócio-tecnológica. Foi, por isso, tarde a más horas (apenas aos 27 anos) que comecei a dedicar-me à aprendizagem de um instrumento musical. Não tenho lá grande jeito, é verdade, mas não trocaria por nada o prazer que retiro das horas que dedico à guitarra. No início, foi terrível. A aprendizagem de um instrumento musical tem uma dimensão física que porventura escapa a quem nunca tenha tido o privilégio de se meter nessa aventura: aprender a tocar guitarra, por exemplo, dói. E não é pouco. Os primeiros meses são mesmo desanimadores: os dedos ficam feridos, os pulsos latejam e as costas arqueiam. E parece que nunca saímos do sítio. Depois, pouco a pouco, descobrimos que há coisas que não conseguíamos tocar antes que agora conseguimos tocar sem esforço. Adquire-se uma perícia rítmica, uma agilidade nos dedos, afina-se o ouvido e, sobretudo, lentamente, começa-se a perceber o fenómeno musical como um sistema que tanto se rege por regras como por fugas que teimam em fintar-nos, sobretudo quando somos autodidactas (é o meu caso). É óbvio que não é preciso compreender a música para fruí-la. Mas cada esforço que fazemos para a compreender, por mais ínfimo que seja, é um contributo tremendo para aumentarmos, sem limite à vista, a intensidade e a dimensão desse mesmo prazer. Estou a falar da música – mas poderia estar a falar de outra coisa qualquer.

Hábitos de consumo online dos Portugueses: um estudo

Acabo de descobrir um documento recente (via facebook), que acrescentei de imediato à página dos dados quantitativos do blogue, intitulado Hábitos de Consumo Online dos Portugueses: Resultados Preliminares. O estudo é da autoria de Jorge Vieira e Miguel Caetano, dois investigadores do CIES-IUL e foi apresentado na 2.ª Conferência Internacional sobre Cultura Pirata na Sociedade da Informação a partir de um inquérito dirigido a uma amostra auto-seleccionada via redes sociais (facebook, Twitter, Google Plus e FriendFeed) sobre os hábitos de consumo online nacionais.

Apesar de a amostra não ser, como é óbvio, representativa da população portuguesa, o estudo apresenta resultados muito interessantes. Destaque para o facto de a visualização de vídeos online (48,8%) e de a audição de música (38,8%) serem a 2.ª e 3.ª prática mais referida (logo a seguir à consulta de portais noticiosos) e de as mesmas categorias (música e vídeos) ocuparem o topo dos formatos mediáticos mais descarregados e fruídos em linha.

Pela parte que me toca, tenho pena que o inquérito não tenha incluído uma pergunta sobre os vídeos musicais, o que permitiria cruzar as respostas a esta hipotética pergunta às diferentes percentagens obtidas em relação às categorias “música” e “vídeos”. Ainda assim, repito, este é precisamente o tipo de estudo empírico que urge fazer em Portugal pelo que apenas posso congratular efusivamente os autores pela valiosa empreitada.

YouTube + Last.fm + Billboard + Amazon + iTunes = TUBEIFY

Se é indiscutível o facto de a Web ser já hoje em dia um vastíssimo arquivo videomusical, onde qualquer utilizador tem acesso a uma oferta que vai do último vídeo de uma estrela planetária ao clipe caseiro do projecto musical mais obscuro oriundo do canto mais recôndito do planeta, a verdade é que ainda faltava uma aplicação que tornasse a experiência da sua fruição em algo comparável ao de uma genuína e ininterrupta jukebox videomusical. Utilizo o pretérito porque agora há o Tubeify, um portal criado por Tomas Isdal, um estudante da Universidade de Washington, que é um autêntico mashup do YouTube com o Last.fm, a Billboard e a Amazon com uma interface inspirada no iTunes.

Interface do Tubeify

 

As grandes vantagens do Tubeify em relação ao YouTube (ou a qualquer outro portal de partilha de vídeos) são evidentes:
– permite uma navegação mais integrada e restrita exclusivamente aos vídeos musicais;
– um determinado vídeo musical continua a poder ser fruído na mesma janela enquanto se procede a pesquisas;
– possibilita a criação de playlists personalizadas que podem ser partilhadas através da disseminação de um URL;
– permite a compra das trilhas sonoras via Amazon;
– acesso às tabelas de venda da Billboard desde 1964.

Pontos críticos passíveis de futuros melhoramentos:
– alargar a oferta do YouTube a outros portais de partilha de vídeos, sobretudo se tivermos em conta que o portal da Google tem uma quantidade considerável de vídeos musicais banidos ou de visualização restringida a alguns países por questões de direito de propriedade;
– refinar os filtros de selecção e o motor de pesquisa de vídeos musicais: é notório que há muito material videomusical do YouTube que não está acessível na aplicação, sobretudo os conteúdos gerados pelos utilizadores (CGU);
– equacionar a possibilidade de um utilizador carregar novos conteúdos ou de incluir na amostra navegável conteúdos que não estão incluídos;
– alargar a possibilidade de compra das faixas mosaicas a outros portais para além da Amazon, de forma a permitir a comparação de preços;
– integrar o acesso a outras tabelas de venda para além da norte-americana Billboard.

Ainda assim, o cômputo geral das funcionalidades do portal é francamente positivo e possibilita uma genuína e cómoda experiência integrada de fruição videomusical. Se já era detectável a utilização de portais como o YouTube como um mero music player, o Tubeify é mais um poderoso intrumento para consolidar esta deriva da fruição musical para uma fruição videomusical nas plataformas digitais.

RTP Música

Talvez tenha passado despercebido à maioria, mas é, até ver, a grande notícia do ano sobre o panorama mediático nacional: a RTP vai lançar, no próximo dia 7 de Março, um novo canal temático por cabo, a RTP Música, que pretende ser um espaço de divulgação dos músicos dos países de língua oficial portuguesa.

Para já, a notícia não é boa, nem má, apesar das expectativas serem elevadas. Há indícios promissores: a inclusão de todo o espaço da lusofonia (oxalá a música dos PALOPs e, em especial, a fervilhante cena videomusical urbana de Angola ocupe um lugar de destaque), a aposta nas novidades e a promessa de capitalizar o vasto património videomusical do canal público. Importante, para já, é o facto da RTP ter percebido que o enorme sucesso dos vídeos musicais nas plataformas digitais pode ser capitalizado no panorama televisivo nacional, sobretudo num momento em que a MTV Portugal, à semelhança das suas congéneres europeias e mundiais, parece estar definitivamente arredada do seu estatuto de rádio com imagens. Vai ser muito interessante acompanhar a forma como a RTP Música vai investir na componente transmediática (para já o facto da página do Facebook não ter um URL personalizado e um logotipo super-pixelizado não indiciam nada de bom) e se vai conseguir manter-se à margem da voragem das grandes editoras que irão, estou certo disso, querer negociar o airplay e a playlist do futuro canal, especialmente quando a administração do canal público garante que este novo projecto será auto-financiável. Outro aspecto para mim fundamental será observar se o canal vai finalmente integrar conteúdos gerados pelos utilizadores na sua grelha e, porque não, fomentar a sua produção e disseminação numa dinâmica participativa que seria pioneira no nosso país.

De salientar que o ressurgimento dos vídeos musicais no panorama televisivo nacional acompanha uma tendência que se tem verificado a nível mundial nos últimos anos, sempre à margem da MTV, e que resulta do estrondoso sucesso do formato na Internet. Ver os casos da Fuse TV (EUA), Much Music (Canadá), MCM (França) e ainda a recente intenção da Vevo (apenas disponível fora do mercado norte-americano via YouTube) criar o seu próprio canal televisivo, a T-Vevo.

ADENDA (27/01): Entretanto, um colaborador da RTP Música alertou-me para o facto da página do facebook do futuro canal já ter um URL personalizado e um logo todo catita.