Buraka Som Sistema (ft. Blaya & Roses Gabor): «(We Stay) Up All Night» (Pedro Varela, 2011)

Se há banda que não brinca em serviço no domínio da videomusicalidade são os Buraka Som Sistema e o último clipe da banda está aí para o provar. O vídeo, realizado por Pedro Varela, é um exercício performativo que encena uma espécie de live act, digitalmente mediado, entre a banda e os seus fãs. A natureza metamediática do clipe é desde logo anunciada nas palavras que surgem em segundo plano na tela onde vão ser projectados as performances do fãs: BSS live streaming… loading… scanning webcam…. A partir desse momento, as filmagens vernaculares dos fãs a dançar ou a mimar a letra do tema tornam-se praticamente indissociáveis das imagens das duas vocalistas convidadas, numa espécie de celebração das possibilidades de fruição participativa da Web Social. Powerful stuff, indeed.

Meta & Mash-Up: dois exemplos videomusicais

Post rápido para fazer referência a dois vídeos musicais recentes.

O primeiro é relativo ao tema «At My Heels» de Twin Shadow (The Director’s Nod, 2011) que inclui, à boa maneira dos extras dos DVDs, um comentário áudio da suposta dupla de realizadores responsáveis pelo clipe. O resultado é hilariante não apenas devido ao cariz exageradamente analítico dos comentários, mas sobretudo porque este meta-vídeo acaba por anular por completo uma das funções primordiais de qualquer vídeo musical que é o de promover uma trilha sonora que, aqui, se tornou praticamente inaudível.

 

O segundo é o mais recente mash-up videomusical de Kutiman, um DJ/VJ israelita que constrói temas originais utilizando material audiovisual existente no YouTube. O resultado é impressionante e é um eloquente exemplo de remediatização da criatividade vernacular que pulula nas plataformas digitais.

No Age: «Fever Dreaming» (Patrick Daughters, 2011)

Este é o mais recente trabalho de Patrick Daughters, um dos mais talentosos realizadores de vídeos musicais da actualidade, para o tema «Fever Dreaming» dos No Age (2011). Deixo-o aqui porque é um exemplo bem recente das genuínas possibilidades de experimentação e da criatividade que gravitam em torno do formato.

O conceito é muito simples, mas paradoxalmente fabuloso e metacinemático e consiste em projectar fisicamente para o espaço cénico uma das mais importantes técnicas cinematográficas: a do enquadramento. Numa primeira fase, um zoom-in da câmara assume propriedades físicas na realidade capturada, empurrando, num movimento concêntrico, os elementos cénicos mais periféricos de forma a caberem nos sucessivos enquadramentos da câmara; numa segunda fase, posterior a um zoom-out, um segundo zoom-in mais rápido vai literalmente destruindo todos os elementos cénicos que vão ficando fora dos sucessivos enquadramentos (reparem, por exemplo, nos pormenores do chapéu do guitarrista e da mão direita do baterista). O clipe termina com um fulgurante plano sequência que leva à dilaceração dos músicos. Está aqui todo um tratado de epistemologia audiovisual pela forma como a observação altera a forma como os objectos são percepcionados.

Tudo isto numa mera sequência videomusical com pouco mais de 4 minutos. Chapeau.

ADENDA (07/02): podem encontrar uma entrevista com Patrick Daughters sobre este vídeo musical aqui. Já agora, fiquem com um elucidativo making of.

Roleta videomusical com pavão escondido

Um dos grandes fenómenos das plataformas digitais em 2010 foi o Chatroulette, um portal russo criado por Andrey Ternovskiy que permite interacções audiovisuais aleatórias em tempo real entre os seus utilizadores. Apesar de alguns estudos de webometria apontarem para o facto (empiricamente verificável) de cerca de 1/8 das interacções do portal serem de cariz sexual, a verdade é que o Chatroulette tem sido utilizado como uma fonte muito profícua para vídeos musicais, tendo mesmo dado origem ao surgimento de autênticos fenómenos de popularidade como é o caso de Merton, o famigerado Piano Chat Improv.

Um dos mais recentes, conseguidos e propagados (já vos disse que abomino o termo viral, certo?) exemplos desta simbiose entre o portal e o universo dos vídeos musicais é um conteúdo gerado pelo utilizador (CGU) do YouTube Steve Kardynal. A ideia é muito simples e irresistível: gravar, ao som do tema «Peacock» da Katy Perry, a interface do Chatroulette com as reacções de um conjunto de utilizadores perante a peculiar performance coreográfica do autor do vídeo.

O sucesso deste fabuloso vídeo musical reside na conjugação de diversos factores. Para além de uma sábia utilização de uma trilha sonora popular que chegou ao topo do Hot Dance Club Songs da Billiboard (e cuja letra, ambígua qb, já deu origem a inúmeras remisturas e paródias) e das inegáveis virtudes humorísticas da performance coreográfica de Steve Kardynal, o aspecto fulcral para a sua propagação é o facto de o vídeo musical tornar visível o seu medium (a Web 2.0). Na sua obra seminal, Understanding Media, Marshall McLuhan não se cansa de nos chamar a atenção para o facto de as características dos media não serem óbvias ou sequer facilmente perceptíveis, na medida em que são camufladas pela opacidade dos “conteúdos” veiculados pelos mesmos:

It is only too typical that the “content” of any medium blinds us to the character of the medium. This fact merely undelines the point that the medium is the message because it is the medium that shapes and controls the scale and form of human association and action. (2.1, MCLUHAN, 2001, p. 9)

O vídeo musical em causa está nos antípodas desta tendência típica dos conteúdos mediáticos dissimularem o seu medium, na medida em que a sua transparência faz vir ao de cima as características da Web 2.0, reproduzindo não apenas a interface do portal como uma selecção das interacções audiovisuais entre Steve Kardynal e diversos utilizadores. Esta encenação (digo encenação, porque são evidentes os sinais de edição num vídeo que não consiste numa mera aglutinação de momentos gravados em tempo real) cria um efeito especular de grande impacto humorístico: o utilizador não apenas assiste a uma performance já de si hilariante como vê (e, em alguns casos, se revê em) uma vasta paleta de reacções (espanto, perplexidade, divertimento, choque, repulsa, etc.) de outros utilizadores perante o mesmo espectáculo.

Como é óbvio, um meta-vídeo musical deste tipo jamais poderia ter sido concebido quando o formato era exclusivamente um objecto televisivo: são as propriedades interactivas do medium que possibilitam a participação dos utilizadores e a propagação de conteúdos gerados pelos mesmos (CGU). Outra novidade absoluta da convergência do formato é o facto de, apesar de a editora de Katy Perry, a Capital Records, não ter encomendado a produção de um vídeo musical oficial para o tema, este já ser o segundo clipe não oficial de «Peacock» que consegue ultrapassar a barreira do milhão de visualizações: o primeiro foi este e já vai, de resto, em 5 milhões. Apesar disso, o pavão continua em parte incerta.

The Limousines: «Very Busy People» (Mathieu Wothke, 2011)

Uma das razões de ser deste blogue é o de me possibilita a partilha de alguns vídeos musicais recentes que sejam particularmente pertinentes para o meu projecto de investigação. É o caso deste, realizado por Mathieu Wothke, que possui a virtude de consistir numa espécie de making of do próprio vídeo (metafluxo videomusical – falarei oportunamente desta e das demais categorias da transfluência videomusical), que ilustra a utilização de diversos programas (Safari, Photoshop, Quicktime, Cinema 4D, Aperçu, iPhoto), redes sociais e portais de partilha de vídeo (facebook, vimeo) e de material mediático de outros utilizadores (música e fotografias) na sua concepção. A motivação para este belo exercício de estilo poderá residir no próprio título do tema que assenta que nem uma luva ao estatuto dos utilizadores destas novas e fascinantes tecnologias.