Testemunha digital

Das cenas mais irritantes que posso ver num vídeo musical é a designação “official audio” no título. Isto porque a designação parece querer negar a sua própria identidade mediática: qualquer contéudo do YouTube é necessariamente audiovisual, nem que a parte visual seja “apenas” uma fotografia (de resto, já por diversas vezes falei aqui da importância e riqueza dos diaporamas videomusicais). Pois parece que a St. Vincent partilhará a mesma irritação: cliquem em play e reparem bem na imagem deste suposto “official audio” de um tema do seu próximo disco.

E agora reparem no nome da canção. Pois é.

YouTube Rewind 2013

Este ano, o YouTube começou a utilizar o termo trending para classificar e calcular os seus vídeos mais populares, utilizando supostamente para isso não apenas o número de visualizações, mas também o das partilhas e o de pesquisas no portal. A coisa até parece fazer sentido, mas não prima pela transparência. Aliás, a coisa apenas será transparente caso o portal utilize, de facto, uma fórmula para calcular os vídeos mais populares. Se assim é, por que raio não torná-la pública? Parece-me óbvio que a divulgação da fórmula poderia dar origem a uma discussão muito interessante (eufemismo) em torno da forma como a malta do YouTube valoriza cada um dos indicadores (views, shares e searches) na sua definição de “popularidade” (ou trending). Intrigado, acabei por formular essa pergunta no Quora. Pode ser que haja mais alguma novidade nos próximos dias.

Quanto ao ano 2013 deste absoluto vórtice audiovisual, o mínimo que se pode dizer é que se verificou uma consolidação da importância do formato videomusical na actual paisagem mediática digital. Nesta lista de reprodução (Top 10 Trending YouTube Videos in 2013), 3 são vídeos musicais (entre os quais o primeiro lugar) e outros 3 utilizam a música de forma proeminente. Na lista dos vídeos musicais mais populares (ah pois é, o YouTube apenas fez duas playlists no seu balanço anual e a dos vídeos musicais é uma delas), gostaria de destacar duas curiosidades que me interessam particularmente: o facto de surgirem na lista dois exemplos flagrantes de duas das novas tendências da videomusicalidade que detectei na minha tese: um vídeo musical textual (ou lyric music video) e um diaporama videomusical.

Nos próximos dias, tenciono publicar a lista habitual dos meus vídeos musicais favoritos do ano. Até lá, podem sempre rever a do ano passado.

Nota

Ontem, com um aviso de apenas 3 horas, os My Bloody Valentine disponibilizaram, após mais de duas décadas de espera, uma hiperligação na sua página do facebook que redireccionava para uma página do portal da banda onde os utilizadores podiam comprar e descarregar o novo álbum intitulado mbv. Quase simultaneamente, a banda carregava para a sua página do YouTube nove diaporamas videomusicais com a capa do novo disco e cada uma das suas nove faixas. Ou seja, mais uma vez, o formato videomusical é accionado quase de imediato para suportar o lançamento de um novo disco, o que demonstra pela enésima vez que a fruição musical está a convergir para o formato. Anúncio no facebook + descarregamento pago num portal + disponibilização das faixas no YouTube. Está aqui a fórmula que, estou seguro, será cada vez mais a utilizada para lançar discos nas plataformas digitais.

mbv

Vídeos musicais textuais (reprise)

Retomo o tema para acrescentar mais algumas notas sobre os precursores deste importante subgénero dos diaporamas videomusicais.

O surgimento dos vídeos musicais textuais (lyric music videos) remonta, pelo menos, ao clássico Sign ‘O’ the Times de Prince (1987), que foi produzido pela editora perante a recusa do músico em gravar um vídeo para o seu single. O género, relativamente bissexto na sua pretérita difusão televisiva, tem vindo a ganhar uma crescente preponderância nos últimos anos, servindo como uma espécie de “pré-vídeo musical” para garantir a imediata presença do lançamento de um novo tema de um artista nos portais de partilha de vídeos (sobretudo o YouTube) e alguns deles lograram mesmo obter uma popularidade assinalável (o recente caso de Cee-Lo Green vem de imediato à mente). Ainda assim, recordo alguns exemplos de vídeos musicais textuais anteriores à convergência do formato para a Web Social, como o que deixo de seguida para um tema dos Grandaddy em 2000. No entanto, na altura, esta era apenas uma das imensas possibilidades de concretização de um produto videomusical para ser transmitido pela televisão musical e não tinha o significado que tem hoje em dia, que remete para a inapelável convergência da fruição musical multimediática para o formato videomusical. É ainda possível estabelecer uma relação entre este subgénero videomusical karaoke com as animações tipográficas ou tipografias cinéticas (o Vimeo tem mesmo uma canal dedicado ao género), cuja origem pode ser traçada ao genérico criado por Saul Bass para o filme North by Northwest de Alfred Hitchcock (1959) (2.2 KRASNER 2008: 68-70).

Deixo de seguida, por ordem cronológica, os diversos exemplos citados neste post e cuja visualização denota bem a relação e evolução desta prática videomusical.

Vídeos musicais textuais

Ultimamente, tem surgido uma série de diaporamas videomusicais que merece uma atenção especial, na medida em que indicia a emergência de um subgénero que, contrariamente à esmagadora maioria dos diaporamas videomusicais, não é vernacular mas oficial: os vídeos musicais textuais (lyric music video). Eis alguns exemplos eloquentes de artistas com projecção internacional (Cee-Lo Green, Britney Spears e Blur):

Estes vídeos musicais têm em comum o facto de poderem ser conceptualizados como vídeos karaoke, isto é, como vídeos que disponibilizam aos utilizadores as letras dos temas em sincronia com as respectivas faixas sonoras. Para além de historicamente, podermos apontar este clássico como percursor deste novo subgénero, também é curioso verificar que todos eles podem ser vistos como teasers para os vídeos que semanas depois viriam a ser disponibilizados na Web para os mesmos temas:

A emergência deste subgénero videomusical vem, só por si, e mais uma vez, corroborar uma série de conclusões que tenho vindo a apontar no meu projecto de investigação e, como não podia deixar de ser, neste blogue:

• os vídeos musicais são, hoje em dia, um dos formatos fundamentais e primordiais para a fruição musical online e as editoras parecem ter finalmente despertado para este facto;
• os vídeos musicais desempenham de forma quase exclusiva a importante função multimediática de qualquer fruição musical: neste caso, a disponibilização das letras das canções passou do inlay dos suportes físicos electromagnéticos para a videomusicalidade digital;
• a convergência dos vídeos musicais para a Web Social tornou comum um tipo de ocorrência bissexta na anterior mediatização televisiva do formato: a existência de mais do que um vídeo musical (e oficial) para um mesmo tema;
• a crescente influência das práticas videomusicais vernaculares nas oficiais é um facto indesmentível.