Faina videomusical #4

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Esta semana, os meus destaques vão para o regresso não de um, nem de dois, mas de três dos meus realizadores favoritos do formato: Keith Schofield, Patrick Daughters e Eric Wareheim. Os três vídeos conseguem a proeza de não apenas apanhar o espectador desprevenido como de reforçar a marca autoral de cada um destes talentosos realizadores.

Darwin Deez: «You Can’t Be My Girl» (real. Keith Schofield)

Já se sabia que não há nenhum realizador mais “meta” do que Keith Schofield. Aqui, ele brinda-nos com um vídeo integralmente feito com imagens de arquivo (ou stock footage) nas quais foi posteriormente inserida a figura de Darwin Deez. É a colagem videomusical mais fabulosa que vi até hoje.

Phoenix: «Entertainment» (real. Patrick Daughters)

Um verdadeiro desvario narrativo que parece ter sido feito para parodiar o recente protagonismo da Coreia no universo dos vídeos musicais.

Beach House: «Wishes» (real. Eric Wareheim)

Leva o prémio do vídeo musical mais lynchiano de todos os tempos.

Punch-Drunk Surprise

Apesar de esta colagem videomusical de Hsien Lee ter sido carregada para o YouTube há quase 7 anos, apenas a descobri há alguns minutos. É um fabuloso exercício de montagem vernacular que sobrepõe segmentos do mais musical dos filmes de PT Anderson a um dos incontornáveis clássicos dos Radiohead. Não consigo imaginar melhor forma de fechar a semana.

2012 Music Video Mashup

Ora aqui está uma bela colagem videomusical da autoria de Renier Mouthaan a partir de uma selecção dos seus 35 vídeos musicais favoritos de 2012. Lista completa aqui.

Supercuts

Ainda a propósito de colagens videomusicais, tenho reparado nas últimas semanas uma assinalável produção de supercuts, um termo vernacular que designa a colagem de uma grande série de imagens oriundas de diversos formatos (mas sobretudo filmes e séries de TV) cujos protagonistas pronunciam segmentos da letra do vídeo musical original: os primeiros segundos da colagem exibem esse vídeo na íntegra e depois apenas permanece a música que serve de base para a inteligibilidade da colagem. O exemplo mais bem conseguido que conheço é este dos sempre prodigiosos Ecletic Method a partir do clássico 99 Problems de Jay-Z. Um prodígio.

Colagens videomusicais

As colagens videomusicais são produções vernaculares (videomusicais) de um vídeo musical em que impera o que John Hartley apoda de “cultura da redação” (redaction culture): «the production of new material by the process of editing existing contents» (2.1 HARTLEY 2008: 112).

A prática de produções artísticas eminentemente redaccionais tem uma vasta tradição em diversas áreas da criação artística, entre as quais se destaca a técnica de “corte e cose” desenvolvida pelo artista plástico Brion Gysin e posteriormente tornada popular pelo cut up writting que o escritor norte-americano William S. Burroughs aplicou, por exemplo, na sua The Nova Trilogy (1961-1964) (2.2 SHEPPARD 2008: 254). No campo musical, a gravação de práticas redaccionais remonta ao famoso Magnetic Tape Music Project (1952) de John Cage, Morton Feldam, Christian Wolff e Earl Brown e à Gesang der Jüngling (1955-1956) de Karlheinz Stockhausen (2.2 PRENDERGAST 2000: 46 e 53) e atingiu uma crescente notoriedade a partir da década de 80 com a proliferação de exercícios de remistura (remixing) e da utilização de citações (sampling) e concatenações (mash-ups) (1.1 AYMAR 2011: 6), que deram origem a clássicos como My Life in the Bush of Ghosts (1981) de David Byrne e Brian Eno ou The Grey Album (2004) de Danger Mouse, um disco pirata (bootleg) que cola a performance vocal de Jay-Z no seu The Black Album (2003) a segmentos musicais retirados de The White Album (1968) dos The Beatles. Dois desenvolvimentos tecnológicos estiveram na base da expansão da cultura da colagem musical (ou mash-up culture, por sinédoque): a abundância de materiais musicais disponíveis gratuitamente fruto da sua convergência digital na Web; e o desenvolvimento de aplicações que tornaram cada vez mais fácil a qualquer utilizador desconstruir e reconstruir esta vasta oferta de matéria-prima musical (2.1 SERAZIO 2008: 81). Na medida em que, como foi referido anteriormente, os artefactos musicais tendem a convergir de forma significativa na Web Social sob a forma de artefactos videomusicais, era inevitável que estas práticas de colagem e manipulação musical (DJing) migrassem para o campo da videomusicalidade (VJing).

As colagens videomusicais podem ser divididas em dois grandes tipos complementares: i) as que colam integralmente elementos oriundos dos três textos videomusicais (letra, música e imagem) de dois ou mais vídeos musicais; e ii) as que colam o texto musical (letra e música) de um vídeo musical com imagens de um conteúdo audiovisual não videomusical.

Exemplos do primeiro tipo de colagens videomusicais podem ser encontrados no vídeo musical United State of Pop 2010 de DJ Earworm (DJ EARWORM 2011), que consiste numa colagem videomusical dos 25 temas mais vendidos naquele ano no mercado norte-americano; em Ecletic Method Goes Phish dos Ecletic Method (ECLETIC METHOD 2009), que cola videomusicalmente 99 temas clássicos da música pop; e ainda no impressionante My Favourite Colour de Kutiman (KUTIMAN 2011) que cola e sobrepõe segmentos de mais de duas dezenas de vídeos musicais vernaculares oriundos do YouTube para criar um único tema (e vídeo) musical:

Por sua vez, o segundo tipo de colagens videomusicais pode ser exemplificado através de dois vídeos musicais vernaculares produzidos pelo mesmo utilizador do YouTube (J. Taylor Helms) – o de My Body Is A Cage (JTHELMS 2007a), que cola o tema musical dos Arcade Fire a uma edição de imagens retiradas do clássico C’era una volta il West de Sergio Leone (1968); e o de All I Need (idem 2007b), que cola a canção dos Radiohead a uma edição de imagens do documentário Microcosmos de Claude Nuridsany e Marie Pérennou (1996):

Apesar de as colagens videomusicais serem eminentemente práticas vernaculares, existem igualmente alguns casos (raros) de vídeos musicais oficiais que seguiram esta tendência. É o caso do de Rapture Riders (ADDICTIVE TV 2006) que consiste numa colagem videomusical encomendada pela EMI para promover a colagem musical (mash-up) produzida pelo DJ britânico Mark Vidler do tema Rapture de Blondie (1981) com Riders on the Storm dos The Doors (1971).

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Em jeito se síntese dos dos três posts que abordam esta temática, o quadro seguinte refere as características transtextuais das três novas tendências videomusicais eminentemente vernaculares analisadas.

As paródias e os pastiches videomusicais configuram-se sobretudo como hipertextos que, respetivamente, transformam e imitam os seus hipotextos, podendo ambas incluir (ou não) citações intertextuais.

Por sua vez, as colagens videomusicais consistem integralmente em exercícios de redação (2.1 HARTLEY 2008) que fazem com que os mesmos se configurem, parafraseando a famosa expressão de Julia Kristeva (2.2 KRISTEVA 1974), como genuínos “mosaicos de citações” audiovisuais.