Vídeos musicais interactivos: novidades

Apesar de todas as semanas virem parar à Web novos exemplos, confesso que os vídeos musicais interactivos são uma tendência que apenas raramente me entusiasma. O subgénero parece gravitar constantemente em torno das mesmas ideias gastas e só raramente é que se surgem vídeos que, de facto, me parecem acrescentar algo de novo ou relevante ao formato. No entanto, surgiram nas últimas semanas dois que me pareceram, por razões distintas, particularmente dignos de nota.

– O primeiro é relativo ao tema Not The Same dos Tanlines da OKFocus, que permite a manipulação do vídeo (som e imagem, coisa rara) como se o mesmo fosse um documento do Photoshop;

– O segundo é mais uma experiência interactiva de Chris Milk que desta vez brinda uma performance da versão de Beck a Sound & Vision (um clássico incontornável de David Bowie) com a possibilidade de uma manipulação a 360º. O carregamento do vídeo é demorado, mas vale bem a pena aguentar uns minutos para depois mergulhar nesta genuína experiência interactiva.

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The Exquisite Forest

exquisite_forest

Chris Milk (reputado realizador de vídeos musicais e a mente por detrás do fabuloso Johnny Cash Project) e Aaron Coblin (um especialista em visualização de dados e em crowdsourcing) acabam de lançar um projecto artístico colaborativo intitulado The Exquisite Forest (o título é uma decidida alusão aos exercícios de cadavre exquis dos surrealistas). O projecto pretende apelar à colaboração criativa dos utilizadores da Web para construir uma série de narrativas visuais que se vão desdobrando numa estrutura paralela, que, pessoalmente, me fez logo recordar o famoso conto El jardín de senderos que se bifurcan de Jorge Luís Borges. A coisa promete.

Rome (ft. Norah Jones): «3 Dreams of Black» (Chris Milk, 2011)

Chris Milk está definitivamente na linha de frente da tecnologia de interacção na videomusicalidade. Depois de ter sido nomeado 9 vezes para os Webby Awards, o realizador norte-americano surge-nos agora com um belo exercício interactivo em 3D. Podem ter acesso a esta experiência aqui. Único senão: a coisa exige a instalação do Google Chrome. Mas pronto, vale bem os 5 minutos de seca da instalação.

Mais posts sobre interactividade nos vídeos musicais podem ser lidos aqui.

Webby Awards 2011 (ou post cheio de hiperligações que, para vosso exclusivo deleite, me deu um trabalho dos diabos a escrever)

Mais uma manifesta prova da legitimação da importância dos vídeos musicais na actual paisagem mediática digital está na recente divulgação da lista de nomeados para os Webby Awards 2011, os prestigiados prémios organizados pela International Academy of Digital Arts and Sciences que celebra a excelência criativa que pulula na Web em 4 grandes categorias: portais, publicidade interactiva, filmes e vídeos online e mobile. A referida consagração da videomusicalidade não está apenas no facto de existir um prémio específico para vídeos musicais na categoria de filmes e vídeos online, mas também no de o formato penetrar em 11 categorias diferentes. Eis a lista dos vídeos musicais eleitos por ordem decrescente de nomeações (todos produzidos em 2010) com a indicação das respectivas nomeações.

 

Arcade Fire: The Wilderness Downtown (Chris Milk)
> Music Video (Online Film & Video)
> Experimental & Weird (Online Film & Video)
> Use of Video or Moving Image (Website)
> Music (Website)
> Netart (Website)

Johnny Cash: Ain’t No Grave / The Johnny Cash Project (Chris Milk)
> Music Video (Online Film & Video)
> Use of Online Media (Interactive Advertising)
> Use of Video or Moving Image (Website)
> Netart (Website)

Human: The Sandpit (Sam O’Hare)
> Music Video (Online Film & Video)
> Viral (Online Film & Video)

KT Tunstall: Glamour Puss KollaboraTive Music Video (Rupert Style & Tim Bran)
> Editing (Online Film & Video)
> Video Remixes / Mashups (Online Film & Video)

Sour: Mirror (Masashi Kawamura et al)
> Music Video (Online Film & Video)
> Use of Social Media (Interactive Advertising)

Thomas Dolby: The Toadlickers (Paul D TV)
> Music Video (Online Film & Video)

Google Inc: Google Instant with Bob Dylan (Google Creative Lab)
> Online Commercials (Interactive Advertising)

Ok Go: This Too Shall Pass (Ok Go)
> Viral Marketing (Interactive Advertising)

DJ Steve Porter: Press Hop 2 (DJ Steve Porter & SportsNation)
> Video Remixes / Mashups (Online Film & Video)

Antoine Dodson: Bed Intruder Song (The Gregory Brothers)
> Viral (Online Film & Video)

 

O destaque vai, sem dúvida, para Chris Milk que, com apenas dois (magníficos) vídeos, consegue amealhar nada mais nada menos do que 9 nomeações. Mas há ainda alguns factos resultantes das nomeações que, na minha opinião, merecem ser sublinhados:

– 3 vídeos musicais consistem em portais (The Wilderness Downtown, Ain’t No Grave / The Johnny Cash Project e Mirror);
– 2 vídeos musicais são produtos vernaculares (Press Hop 2 e Bed Intruder Song) e 2 resultam de um esforço colaborativo vernacular (Ain’t No Grave / The Johnny Cash Project e Glamour Puss KollaboraTive Music Video);
– 1 vídeo (Google Instant with Bob Dylan) resulta de um reaproveitamento de um vídeo musical de Bob Dylan, originalmente realizado por D. A. Pennbaker em 1967 (Subterranean Homesick Blues). Ver, a este propósito, o facto de ter sido um vídeo similar que venceu o ano passado a categoria de Best Music Video.

Finalmente, a nomeação do Vimeo para a categoria de Best Visual Design & Function e Social Media e do respectivo Vimeo Awards para Best Event vêm confirmar as conclusões de um artigo que publiquei o ano passado. Como derradeira nota, é com algum orgulho que verifico que, ao longo dos seus 4 meses de existência, este blogue mencionou 6 (60%) dos 10 vídeos musicais nomeados. Nada mau.

Ah, podem começar a votar nos vossos favoritos aqui.

Vídeos musicais interactivos II

Uma pequena actualização a este post sobre vídeos musicais interactivos. A lista nunca teve pretensões de exaustividade, mas como encontrei mais três exemplos recentes, aqui vão eles:

Andy Grammer, Keep Your Head Up (Interlude, 2010) [inacessível fora dos EUA]
Este vídeo foi interactivo e incitou à participação dos utilizadores na sua concepção. Pelos vistos (digo pelos vistos porque o raio do Vevo continua a estar inacessível fora dos EUA), o clipe continha dezenas de bifurcações narrativas que podiam ser escolhidas pelos utilizadores dando origem a centenas de resultados finais. Posteriormente, uma votação online determinou a sequência narrativa favorita dos utilizadores e o resultado final pode ser visto aqui.

Black Eyes Peas, BEP360 (Talent Media LLC, 2011)
Depois deste exemplo inaugural, surge agora um segundo vídeo musical sob a forma de uma aplicação para iPhone, iPod Touch e iPad. A qualidade do conceito desta app é inversamente proporcional à qualidade da medonha trilha sonora («The Time (Dirty Bit)») e consiste sobretudo na funcionalidade que permite ao utilizador de visualizar o vídeo em 360º, bastando para isso mover o seu dispositivo. A aplicação inclui ainda um pequeno jogo, a possibilidade (novamente em 360º) de tirar fotos ao cenário onde o clipe foi filmado, a ligação ao Twitter (chapeau pela manobra de disseminação) e a localização geográfica do utilizador (cruzes credo). Os Black Eyed Peas, como é óbvio, não brincam em serviço e contrariamente à aplicação dos The Suzan, esta custa €0,79. Confesso que, por imperativos académicos, fui (como dizer?) camelo e comprei a cena. Se desligarem o som, a experiência de fruição é verdadeiramente admirável. Eis uma pequena recensão / demonstração da coisa:


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Johnny Cash, Ain’t No Grave (Chris Milk, 2010-????)
O Johnny Cash Project é, muito provavelmente, o que de mais admirável já se fez com os vídeos musicais nas plataformas digitais. Um vídeo originalmente realizado por Chris Milk (que já tinha sido responsável por esta maravilha) foi decomposto em imagens (frames) é disponibilizado no portal do projecto onde os utilizadores podem a) desenhar in loco por cima da imagem que quiserem através de uma aplicação de desenho com uma paleta monocromática; b) submeter o seu desenho; c) classificar os desenhos submetidos por outros utilizadores; e d) fruir o vídeo musical a partir de diversos critérios (com os desenhos mais bem classificadas, as favoritas do realizador, segundo uma determinada técnica, aleatoriamente, etc).

Absolutamente admirável e um exemplo tremendo de interactividade ao serviço da cultura participativa, envolvendo um genuíno esforço de crowdsourcing artístico e de curadoria digital. Oxalá o projecto se prolongue indefinidamente, o que daria origem a uma obra verdadeiramente orgânica, múltipla e em plena e ininterrupta mutação. Apetece dizer que temos aqui o mais fabuloso corolário das potencialidades da convergência dos vídeos musicais nas plataformas digitais.

Curiosamente, existe um exemplo português precursor deste tipo de criação colaborativa comparável ao deste fabuloso projecto. «Bad Mirror» dos The Vicious Five (Luís Alegre, 2006) não envolveu o recurso às plataformas digitais, mas apenas a rede de amigos da banda. Podem ler uma entrevista ao líder da banda que explica a sua concepção aqui. O clipe, aviso já, é formidável ou não fosse um clássico absoluto da história dos vídeos musicais em Portugal.