M.I.A. strikes again

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Os vídeos da M.I.A. parecem ter sido fadados para alimentar polémicas. Desta vez, a artista radicada em Londres terá fornecido o vídeo à editora que, pelos vistos, o reteve durante 4 dias sem o colocar na rede. Depois de a própria artista o ter carregado anteontem para o YouTube, a UMG conseguiu retirá-lo do portal invocando uma hipotética violação de direitos de autor. Depois de uma avalanche de tweets, parece que o vídeo está novamente disponível (e ainda bem, pois é o primeiro vídeo que a M.I.A. realiza desde a sua colaboração com Rye Rye). Já não é a primeira vez que um vídeo para um tema da M.I.A. é alvo de uma tentativa de censura (cheguei mesmo a escrever um artigo sobre o tema), pelo que a coisa até terá sido do agrado da menina que, como se sabe, nunca vira as costas a uma boa polémica. Para além do facto de a impressão caseira 3D de armas de fogo e os drones serem dois temas que estão bem na ordem do dia, há ainda um derradeiro motivo para ver este vídeo musical: a sua incensurável qualidade.

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Faina videomusical #7

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Joel Compass: «Back To Me» (real. Ian & Cooper)

Apesar de o formato videomusical ter sido ao longo da sua história um formato fértil na experimentação de novas técnicas de filmagem e de efeitos especiais, a sua convergência para as plataformas digitais veio atenuar essa tendência, o que é em parte explicável pelo pendor vernacular e baixo orçamento de parte considerável das produções. Este vídeo é, por isso, hoje em dia, um caso relativamente bissexto de exploração de uma técnica recente chamada cinemagraph em que cada enquadramento é cristalizado (freeze frame) com a excepção de um pormenor que é animado, podendo essa animação ser pós-produzida em câmara lenta, forward ou rewind. Neste caso, o resultado da utilização desta técnica é bem mais do que uma sequência de gifs e aproxima-se de uma espécie de fotonovela videomusical com pulso, onde as elipses acabam por ter uma papel narrativo tão preponderante quanto o das imagens. Belíssimo.

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Cat Power: «Manhattan» (real. Chan Marhall & Greg Hunt)

Por falar em belo, o punctum deste avassalador objecto videomusical é bem capaz de ser o billboard que surge aos 1’27”, porque veicula a posse de um lugar que entra em tensão com o We’ll never be Manhattan proclamado no refrão. Ter e Ser são coisas distintas, todos nós o sabemos. Mas raramente esse facto nos é explicado de forma tão sublime e eficiente.

Robin Thicke: «Blurred Lines» (ft. T.I. & Pharrell) (real. Diane Martel)

Coloco este vídeo como ponto de fuga à gravitas dos dois anteriores. Believe it or not, este rebuçado absolutamente inofensivo foi banido do YouTube, o que demonstra que ainda há algum terreno a galgar para o portal da Google Inc. superar os pretéritos tiques moralistas da MTV. O Vimeo agradece. E eu lamento.

NSFW

nonsfws_03O AV Club publicou um texto interessante com uma selecção de vídeos musicais da década de 80 que a MTV teledifundiu na época com restrições (isto é, em horário pós-21h ou pós-24h) supostamente devido ao seu conteúdo sexual, violento ou racista. Ver estes vídeos hoje em dia é uma experiência interessante porque demonstra o anacronismo da tolerância da televisão musical em relação ao que considerava ser o politicamente incorrecto. Isto é, como é óbvio, uma forma de olhar para a coisa. Outra, porventura mais interessante, é perceber que, na época, projectos musicais como os Duran Duran, Frankie Goes To Hollywood, Bronski Beat ou a Olivia Newton-John gozavam de uma popularidade que, inevitavelmente, fazia com que as respectivas editoras estivessem empenhadas em “convencer” (estou, como é óbvio, a falar das famigeradas payolas) a MTV a incluir os seus vídeos na sua grelha, fossem eles ou não passíveis de ferir a sensibilidade da sua audiência. Fossem estes vídeos de projectos musicais menos populares e é mais do que provável que nenhum deles teria tido a mais ínfima hipótese de serem teledifundidos. Ainda assim, a MTV não estava disposta a tudo (e por “tudo” refiro-me à possibilidade de serem processados pelos seus espectadores ou pelos pais dos seus espectadores) e não faltam casos de bandas de primeiro plano que viram os seus produtos videomusicais censurados pelo canal.

Hoje em dia, com a ascensão das plataformas digitais nas práticas quotidianas de um número cada vez maior de utilizadores, as coisas mudaram radicalmente: já não há gatekeepers e as tentativas de censura estão condenadas ao fracasso (tive a oportunidade de falar sobre esse tema repetidas vezes neste blogue). No entanto, apesar de toda esta nova liberdade de expressão, os utilizadores das plataformas digitais rapidamente encontraram uma forma não de censurar mas de categorizar conteúdos mediáticos (sejam eles videomusicais ou não) cuja visualização, devido ao seu conteúdo sexual ou profano, é susceptível de criar constrangimentos quando fruídos em instituições de ensino ou no local de trabalho: estou a falar, como é óbvio, da sigla NSFW (Not Safe For Work). De resto, os próprios projectos musicais começaram nos últimos anos a incluir a sigla no título dos vídeos musicais que carregam para os portais de partilha de vídeos (uma pesquisa que acabo de fazer da expressão “music video NSFW” no YouTube devolve nada mais nada menos do que 509 mil resultados). Eis um exemplo recente e eloquente:

A utilização generalizada e sistemática da sigla NSFW é, definitivamente, uma pedra no sapato de quem não acredita na possibilidade de auto-regulação da Web.

Body language strikes again

Já aqui falei diversas vezes da inoperância de qualquer exercício de censura no movimento incessante de convergência dos vídeos musical para a Web. Temos aqui mais um belo exemplo de um meta-exercício sobre o fenómeno num vídeo musical que os Foo Fighters recentemente disponibilizaram para promover a sua próxima digressão norte-americana. Reparem que a escolha do tema Body Language dos Queen é duplamente significativa: não apenas devido às conotações homoeróticas do tema e do clipe original, mas também porque este último foi historicamente o primeiro vídeo a ser censurado pela MTV.

A sério, não vale mesmo a pena

Não deve haver imagem mais irritante para quem é fã de vídeos musicais do que estas omnipresentes mensagens que indiciam a vã tentativa das editoras discográficas em controlar a difusão dos clipes das suas bandas. Em primeiro lugar, fica a pergunta: se um vídeo musical é um veículo promocional, porquê limitar a sua difusão? Esta atitude é comparável à uma hipotética ordem de Belmiro de Azevedo para retirar cartazes do Continente que tivessem sido espalhados gratuitamente pelos seus potenciais clientes pelas ruas de um determinado país. Ou seja: não faz sentido nenhum. Em segundo lugar, o referido esforço é sempre (mas sempre) em vão. Isto porque as editoras ignoram (ou fazem de conta que ignoram) as potencialidades participativas da Web Social. Não há mesmo nada a fazer: um fã de um determinado produto cultural irá sempre fazer o que for preciso para almejar a fruição do objecto que deseja e, no caso das plataformas digitais, pode sempre contar com a ajuda dos seus pares para atingir esse objectivo comum.

Um exemplo recente: a EMI carregou há dias para o canal Vevo do YouTube o novo vídeo musical de um dos seus artistas (Alex Metric), limitando o seu acesso a alguns países (entre os quais se inclui Portugal). No mesmo dia, um utilizador volta a carregar o mesmo vídeo no YouTube, fora do canal Vevo. Algumas horas depois, o portal, a pedido da EMI, retira esse conteúdo alegando (falsamente) o facto de o acesso ao mesmo não estar disponível em Portugal. Ou seja, parecia que qualquer utilizador a aceder à Web a partir do território nacional teria de, forçosamente, ir à página oficial do Vevo. Mentira: em menos de 30 segundos, uma simples pesquisa no Google permitiu-me encontrar o referido vídeo aqui (com melhor resolução) e, melhor ainda, aqui (onde até posso fazer o descarregamento do vídeo em QuickTime e tudo).

Ou seja: editoras discográficas, why bother? Não apenas é um gasto infrutífero de dinheiro e energias, como esses exercícios censórios trazem ainda mais má fama à já consideravelmente deteriorada reputação da indústria musical.