conceitos operatórios isolados

A construção dos conceitos operatórios isolados (COI) do modelo de análise do projecto de investigação resulta da aplicação de um exercício empírico regido por um método hipotético-indutivo sobre o corpus epistemológico.

Apresenta-se de seguida o elenco das diversas dimensões e respectivos indicadores dos 3 COIs nucleares em torno dos quais gravita o modelo de análise do presente projecto de investigação: objeto, corpora e utilizador.

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COI OBJETO (vídeo musical na Web Social)

Dimensão autoral
• a sua autoria tende a ser atribuída ao(s) realizador(es);
• o(s) realizador(es) tanto pode(m) ser o projeto musical responsável pela faixa sonora, uma entidade externa ou uma parceria;
• no caso do(s) realizador(es) ser(em) uma entidade externa, estes podem ser profissionais ou amadores (fãs ou meros utilizadores);
• a informação autoral tende a ser considerada um dado relevante para a fruição do objeto;
• é alvo de restrições devido à suposta violação de direitos de propriedade; no entanto essa propriedade jamais é atribuída ao realizador, mas maioritariamente à editora discográfica, ao projeto musical ou, no caso de uma gravação digital de uma transmissão televisiva, ao canal que o transmitiu originalmente.

Dimensão cinética
• é ubíquo e está em perpétuo movimento; isto é, o mesmo objeto alojado em A, pode em qualquer momento, ser (des)embebido em B, C, D, etc.;
• é paradoxalmente efémero: um objeto alojado em A pode em qualquer momento ser removido, dando origem a dead links (hiperligações inativas);
• é manipulável, dando origem a diversos exercícios de “remistura” por parte dos utilizadores das plataformas digitais.

Dimensão económica
• tanto pode ser o resultado de uma encomenda por parte de uma editora discográfica a uma produtora videomusical como um conteúdo gerado pelos utilizadores das plataformas digitais;
• os valores de produção são variáveis e vão de custos residuais a orçamentos dignos de uma megaprodução hollywoodesca.

Dimensão estética
• consiste na aplicação de uma técnica que provoca uma fruição e juízos de natureza estética e emocional por parte dos utilizadores;
• tende por vezes a ser fruído não com uma forma complementar de fruição musical, mas como uma fonte primária dessa mesma fruição;
• potencializa experiências sinestésicas entre as suas diversas partes que o constituem (ver dimensão morfológica) e outros formatos mediáticos;
• a componente plástica (ou visual) do objeto apresenta uma enorme diversidade, podendo ir de uma estética vernacular ou DIY (do it yourself) a uma estética cinematográfica onde abundam os efeitos especiais;
• a componente musical, apesar de estar sempre presente no objeto, estabelece relações hierárquicas diversas com a componente plástica (ou visual), podendo as imagens mimar a música ou renegá-la a um estatuto de mera banda sonora;
• existem diversos portais que se dedicam à dissecação das propriedades estéticas do objeto com o recurso um vocabulário oriundo da análise fotográfica, musical e cinematográfica (focagem, iluminação, ritmo, melodia, sincronismo, edição, representação, plano, etc.);
• é múltiplo, disseminável e diverso na sua unicidade: o mesmo objeto pode estar carregado diversas vezes na Web dando origem a experiências díspares de audiovisão consoante a fonte da gravação, o formato digital utilizado, o video bitrate e a resolução do streaming do portal onde foi alojado e ainda das características técnicas do terminal onde está a ser fruído.

Dimensão genológica
• pode corresponder a uma reprodução digital do formato captado enquanto objeto televisivo ou a um produto originalmente criado para a Web;
• pode ser constituído por materiais audiovisuais originais e/ou pela reciclagem ou manipulação de materiais audiovisuais pré-existentes;
• tende a ser divido por géneros a partir de dois grandes critérios que rementem ora para o seu conteúdo (narrativo, conceptual e performativos) ora para a sua origem (oficiais e não-oficiais (fan video)).

Dimensão lúdica
• é um dos mais populares conteúdos de entretenimento da Web, facto bem visível pela sua omnipresença no medium e pelo número de visualizações nos portais de partilha de vídeo;
• pode estar munido de tecnologia que possibilita uma interação lúdica do utilizador durante o seu visionamento.

Dimensão morfológica
• consiste numa justaposição de imagens (em movimento ou não) com uma trilha musical, potencialmente constituída por materiais sonoros diversos (música, ruído e linguagem humana verbal);
• a sua duração equivale sensivelmente, na maioria dos casos, à duração da trilha sonora;
• a sua duração média é de 3 minutos e a sua amplitude de duração varia entre 1 e os 90 minutos.

Dimensão ontológica
• é ontologicamente evasivo devido ao seu hibridismo, tendendo a ser confundido com outros formatos mediáticos (curtas-metragens; animações; spots publicitários, video bloggings, etc.);
• possui uma elevada tendência para se acoplar a outros géneros de forma a criar novos conteúdos híbridos: videomods (vídeos musicais + videojogos) e anime music videos (vídeos musicais + anime).

Dimensão participativa
• potencializa a interação dos utilizadores que o recomendam, hiperligam, comentam, remisturam ou parodiam.

Dimensão política
• é alvo de atos de censura (apesar de os mesmos não serem eficientes);
• pode ser veículo de conteúdos políticos (ver dimensão promocional).

Dimensão promocional
• pode funcionar como veículo promocional de uma faixa musical (e da respetiva editora, banda ou artista) ou ainda de um outro conteúdo, produto, serviço, mensagem ou entidade(s).

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COI CORPORA

Dimensão diacrónica
• estão em permanente mutação;
• são constantemente acrescentados e eliminados vídeos musicais aos corpora.

Dimensão morfológica
• são formados pelo somatório de todos os vídeos musicais acessíveis nas plataformas digitais num determinado momento;
• incluem não apenas vídeos musicais criados especificamente para serem difundidos nas plataformas digitais, como conteúdos previamente transmitidos (ou não) pela televisão;
• tendem a ser cada vez mais exaustivos, isto é, existe uma elevadíssima probabilidade de qualquer vídeo musical estar acessível para ser fruído na Web.

Dimensão participativa
• são construídos pela ação conjunta de um vastíssimo número de utilizadores;
• apenas muito episodicamente é que estes utilizadores correspondem ao(s) autor(es) dos elementos que constituem os corpora.

Dimensão sistémica
• os elementos do corpora estabelecem entre si relações de natureza diversa nos portais de partilha de vídeo (video responses, related videos) podendo estar agrupados por tema, etiquetas (tags) ou pelo utilizador que os carregou;
• é possível detetar outros tipos de relação entre os elementos dos corpora nem sempre organicamente suportados pelos portais de partilha de vídeos: pastiches, paródias, remisturas, spoofs, etc.
• é ainda possível agrupar os elementos dos corpora em vários géneros que seguem diversos critérios que se complementam ou suplementam: performativos, narrativos, conceptuais, literal music videos, animações, etc.

Dimensão webográfica
• estão alojados maioritariamente em portais de partilha de vídeos (sendo predominantes o YouTube e o Vimeo), podendo os seus elementos estar embebidos em outros portais da Web.

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COI UTILIZADOR

Dimensão fenomelógica
• os utilizadores podem ser não apenas consumidores mas produtores do objeto;
• os utilizadores tendem sempre a deixar um rasto da sua praxis nos portais que alojam os vídeos musicais, podendo essa marca ir da mera contabilização da visualização à criação do próprio objeto, passando pela publicação de comentários ou exercícios de remistura, paródia e de curadoria digital;
• um determinado utilizador pode ser múltiplo e assumir diferentes identidades ou autorias nas marcas que deixa da sua fruição;
• os utilizadores são nómadas: circulam livremente pela Web Social e procuram os portais necessários para terem acesso ao objeto que desejam fruir.

Dimensão organizational
• alguns utilizadores assumem-se publicamente com fãs do objeto e podem organizar-se sob a forma de comunidades com uma praxis muito ativa e geradora de conhecimento sobre o objeto.
• essas comunidades procuram de certa forma combater a efemeridade do objeto e extrair um cânone dos corpora.

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A definição dos COI objecto, corpus e utilizador constitui o primeiro passo da construção do modelo analítico do projecto de investigação e, só por si, contribui de forma significativa para o cumprimento de um dos seus objectivos: a identificação das características que separam conceptualmente o vídeo musical enquanto objecto televisivo e objecto digital. A dissecação das diversas dimensões dos COIs a partir da observação empírica e indutiva dos indicadores denunciam uma complexidade típica da sua proximidade com a realidade.

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4 comentários a “conceitos operatórios isolados

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