Clássicos XIII – Art of Noise: «Close (to the Edit)» (Zbigniew Rybczyński, 1984)

É impossível sobrestimar a importância do (entre inúmeras facetas) cinematógrafo polaco Zbigniew Rybczyński no universo da videomusicalidade e, em particular, num dos períodos mais fecundos do formato: o dos primeiros anos da MTV, durante o qual o canal se alimentou sobretudo de vídeos produzidos para a denominada fase pós-punk da pop britânica. Não é impunemente que foi apenas alguns meses após o lançamento da MTV que Zbigniew produziu um dos seus mais conhecidos trabalhos, o fabuloso Tango (1982):

Este pequeno prodígio de videoarte viria a desbravar terrenos conceptuais que influenciariam inúmeros realizadores e, em particular, uma das duplas mais inventivas e produtivas dos primeiros anos da MTV: Goodley & Cream (ver, por exemplo, como o caracter mecânico e repetitivo de Tango ecoa neste clássico absoluto da década de 80). Como é óbvio, não seria preciso esperar muito tempo para que, por um lado, o realizador se sentisse atraído pela furiosa emergência do formato videomusical e, por outro, a indústria musical recorresse aos seus serviços para promover os seus artistas: entre 1984 e 1989, Zbigniew Rybczyński realizou meia-centena de vídeos musicais para artistas de primeiro plano como Grandmaster Flash, Ricky Lee Jones, Simple Minds, Jimmy Cliff, Pet Shop Boys ou Supertramp, só para citar os nomes mais sonantes. Apesar da qualidade ser um denominador comum de todo o seu trabalho, nenhum vídeo seu marcou tanto a era inaugural da televisão musical como o de «Close (to the Edit)» para os Art of Noise. Nele podemos encontrar, por exemplo, a técnica de retirar algumas imagens (ou frames) do vídeo que viria a definir a marca autoral de uma Floria Sigismondi, o pendor descontrutivista e analítico de um futuro Michel Gondry ou ainda a obsessão sincrética que viria a definir o formato nas próximas décadas.

Nota: podem ver mais vídeos do realizador polaco nesta minuciosa playlist do YouTube.

Clássicos XII – PJ Harvey: «Mansize» (Maria Mochnacz, 1994)

A icónica capa de «Rid of Me» (1993) da autoria da fotógrafa e realizadora Maria Mochnacz

A icónica capa de «Rid of Me» (1993) da autoria da fotógrafa e realizadora Maria Mochnacz

A verdade, verdadinha, é que poderia praticamente escolher qualquer vídeo realizado pela fotógrafa Maria Muchnacz para a PJ Harvey para esta rubricazinha, mas o de «Mansize» é, provavelmente, a obra-prima desta dupla.

O trabalho que ambas desenvolveram ao longo de mais uma década no campo videomusical constitui um dos capítulos mais fascinantes da história do formato: aquele em que o género feminino deixou definitivamente de ser um mero tema para se emancipar como uma genuína estratégia de modalização da experiência subjectiva, levando ainda mais longe o percurso iniciado no final da década de 80 por artistas como Madonna ou Queen Latifah.

Como Afirma Saul Austerlitz:

Mochnacz’s videos capture something essential to Harvey’s raucous, elegant music: its air of continuous self-invention, of knowingly, constantly taking on new roles. (1.1 AUSTERLITZ 2007: 160)

O papel que a PJ Harvey assume em «Mansize» (oriundo de um disco que está neste momento a festejar o seu vigésimo aniversário) é o de um predador masculino cujo discurso desconstrói o estereótipo do macho simultaneamente obcecado com a sua genitália e impotente perante os encantos do sexo “fraco”: «Silence my lady head / Get girl out of my head / Douse hair with gasoline / Set it light and set it free». O vídeo consiste praticamente num plano médio fixo em que PJ Harvey demonstra mais uma vez o seu feroz talento performativo: as expressões faciais e o movimento da parte superior do corpo conseguem a proeza de serem ainda mais eloquentes do que a própria letra. E depois, há aquele fabuloso momento de cinéma vérité aos 2’09” que jamais poderia ter sido colocado no guião e que assenta que nem uma luva na dimensão conceptual do vídeo.

Adenda: É apenas no final da visualização do vídeo que o plano de abertura ganha um significado distinto aos olhos do espectador: o que parecia de início ser uma pequena encenação de guarda-roupa passa a ser, devido à personagem masculina encarnada pela PJ Harvey, um exercício inconfessável de travestimento e, no limite, na poderosa e subtil expressão de um desejo de mutação de género.

Clássicos XI: Pharcyde: «Drop» (Spike Jonze, 1995)

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Clássicos X – Fionn Regan: «Be Good or Be Gone» (Si & Ad, 2006)

Nem sei bem se isto é um clássico. Apesar de admitir que possa não cumprir, por exemplo, a totalidade dos requisitos que Italo Calvino definiu para identificar um clássico (na esfera literária), há um que, definitivamente, parece ter sido pensado pelo escritor italiano para descrever este vídeo: clássica é toda a obra que relega as vozes do presente a um mero ruído de fundo, sem o qual, todavia, não consegue viver.

Clássicos IX – Guns N’ Roses: «November Rain» (Andy Morahan, 1992)

No capítulo «Genre and Music Video: Configurations and Functions» de Music Video and the Politics of Representation (1.1 RAILTON et al. 2011: 41-65), Diane Railton e Paul Waltson propõem uma divisão geneológica quaternária do vídeo musical em i) pseudo-documentários (de cariz quase antropológico na medida em que fornecem um acesso privilegiado aos processos criativos dos artistas); ii) artísticos (que funcionam como veículos para experimentações estéticas); iii) narrativos e iv) performativos. Para além de prever a possibilidade da existência de géneros híbridos, uma das virtudes desta divisão reside no facto de a mesma não ser apenas tipológica mas funcional, isto é, a cada género corresponde uma função de legitimação e de autenticidade:

In other words, [i] pseudo-documentary videos tend to privilege the skills of the working musician, [ii] the art video confers artistic credibility to the performer, [iii] the narrative video situates the performer within the iconographic landscape of the musical genre, and [iv] the staged performance video reinforces the mediated image of the artist(s) it promotes. (1.1 RAILTON et al. 2011: 62)

Vem esta pequena introdução a propósito do vídeo de «November Rain» dos Guns N’ Roses: penso que qualquer leitor poderá facilmente observar que este absoluto clássico faz o pleno em todas as categorias propostas por Railton & Waltson. Para além de veicular a habilidade dos membros da banda enquanto músicos (ver, por exemplo, o solo de Slash) e de reforçar a sua imagem mediatizada (como estrelas epítomes do cool: fumam, bebem, vestem de uma forma catita e têm uma entourage repleta de miúdas giras), o vídeo é particularmente eficaz em conferir uma credibilidade artística dentro do género musical em que se movem (o pop-rock) não apenas através das suas inegáveis características cinematográficas (diria mesmo hollywoodescas) como na imensa legião de fãs que dão pulso aos seus segmentos performativos. Do ponto de vista da eficácia, não é fácil encontrar um vídeo musical capaz de lhe fazer sombra.

Admito que o vídeo possa ter envelhecido menos bem. Numa paisagem mediática digital onde predomina actualmente a cultura vernacular, a megalomania de «November Rain» poderá ser indigesta a muitos, sobretudo devido à fragilidade da sua construção narrativa e, convenhamos, ao recurso excessivo de simbolismos que não primam pela subtileza (o bolo da noiva, o vinho tinta derramado, etc.). No entanto, em 1992, o vídeo funcionou como um fabuloso produto mediático que caucionou o estatuto de Axl Rose & companhia: o da banda com maior sucesso comercial do planeta. Como afirma Saul Austerlitz:

Its enormousness […] made it ripe for parody […], but it remains a marvel of the music video’s ambitions to cultural significance and emotional heft. And with the ever-shrinking promotional budgets for videos in the new century, it is unlikely that their equal will ever be seen again. If the early era of music video was a gathering of strength, moving towards ever-bigger, ever-grander productions, this Guns N’ Roses video was the form’s apex, the high point in a curve that swung downwards in their aftermath towards the smaller, more economical, less heroically ambitions of video of today. (1.1 AUSTERLITZ 2007: 118)

Sinal inequívoco da longevidade do vídeo é o facto de ainda hoje ser alvo de exercícios paródicos. Vejam por exemplo esta recente maravilha: uma remediatização no formato de foto-novela que alia uma focalização nas fragilidades já enumeradas com um anacronismo irresistível (as personagens debitam “LOL”s e “WTF”s e remetem para filmes e acontecimentos posteriores ao vídeo).