David Bowie: O Dia Seguinte

Capas de Heroes (1977) e The Next Day (2013)

Capas de Heroes (1977) e The Next Day (2013)

.
Ontem, o mundo acordou com uma notícia surpreendente: no dia em que David Bowie comemorou o 66.º aniversário, foi anunciado o lançamento para março de um novo álbum intitulado The Next Day e disponibilizados um novo single no iTunes e respectivo vídeo musical no YouTube.

Para além da surpresa do anúncio (há dez anos que Bowie não lançava nenhum disco de originais e o secretismo da produção do novo disco é digno nesta nossa era em que a informação circula a uma velocidade estonteante), o que tem suscitado um imenso burburinho é a capa do álbum que consiste na re-utilização da de Heroes (1977) à qual foi rasurado o título original com um traço negro horizontal e acrescentado um quadrado branco com o título do novo disco em caracteres negros em fonte Doctrine (ver imagem supra).

Já em 1986, Peter Wollen chamava a atenção para o facto de a “era electrónica” estar a ampliar o alcance da noção de “idade de reprodução” de Walt Benjamin: a reprodução, o pastiche e a citação estariam, pouco a pouco, a deixar de ser meras práticas de parasitismo textual para se tornarem em formas constitutivas da textualidade mediática (2.2 WOLLEN 1986: 169). Nicholas Bourriaud refinaria esta assunção pós-moderna através da observação de que, desde os princípios da década de 90, um número crescente de artistas interpreta, reproduz e torna a exibir como seus trabalhos da autoria de terceiros (2.1 BOURRIAUD 2002: 12). A denominada “arte da pós-produção” foi então conceptualizada pelo autor francês como uma resposta à crescente entropia da cultura global numa era da informação caracterizada por um aumento de oferta e pela crescente legitimação de formatos mediáticos outrora ignorados ou alvo de desdém. Esta “cultura de redação”, uma noção similar definida pela produção de novos materiais a partir de um processo de edição de conteúdos pré-existentes (2.1 HARTLEY 2008: 122), acabaria por tornar-se numa das características fundamentais da emergente paisagem mediática digital.

No caso da capa de The Day After, o estúdio de design Barnbrook levou a cabo um exercício minimalista de redacção a partir da famosa capa do fotógrafo nipónico Masayoshi Sukita, preservando a sua palette monocromática. Num post publicado no blogue do estúdio, os criadores enumeram razões conceptuais e temáticas para esta arrojada e inovadora escolha:

If you are going to subvert an album by David Bowie there are many to choose from but this is one of his most revered, it had to be an image that would really jar if it were subverted in some way and we thought Heroes worked best on all counts. Also the new album is very contemplative and the Heroes cover matched this mood. The song Where are we now? is a comparison between Berlin when the wall fell and Berlin today. Most people know of Bowie’s heritage in Berlin and we want people to think about the time when the original album was produced and now. (fonte, negrito meu)

Curiosamente, esta passagem entra em flagrante contradição com uma anterior em que se afirma que:

The Heroes cover obscured by the white square is about the spirit of great pop or rock music which is of the moment, forgetting or obliterating the past. (fonte, negrito meu)

De facto, se há uma coisa que esta capa não faz é ignorar ou obliterar o passado: muito pelo contrário, invoca-o de forma inequívoca, parodiando uma das capas mais icónicas da discografia de David Bowie. No entanto, há duas características estéticas, não referidas pelo estúdio, que tornam a capa de The Next Day particularmente actual ou “in the moment”.

A primeira é, sem dúvida, a sua conformação vernacular: o exercício de redacção é minimalista e, com a excepção da utilização de uma nova fonte tipográfica, poderia ter sido perfeitamente executado, com um mínimo de esforço e perícia, por qualquer utilizador das plataformas digitais, sobretudo se tivermos em conta que as práticas criativas vernaculares digitais são pródigas em exercícios similares de apropriação e manipulação de materiais alheios.

A segunda é, porventura, mais subtil, mais ainda mais significativa: o facto de o elemento central da capa consistir apenas num quadrado branco com o título do álbum não pode deixar de ser vista como uma manifesta alusão à perda de importância deste medium (as capas) na actual paisagem mediática digital. Se o surgimento do CD na década de 80, e a consequente diminuição do tamanho das capas (de 25x30cm para 12x12cm), representou um rude golpe para esta componente imagética da fruição musical, a progressiva desmaterialização das gravações musicais em bits e bytes iniciada na década de 90 levou praticamente ao seu desaparecimento na fruição musical de muitos utilizadores que acumulam vastos arquivos MP3 sem qualquer suporte visual, até porque, não raras vezes, as faixas musicais não possuem um referente físico (disco). Isto é particularmente visível no iTunes: os poucos utilizadores que se dão ao trabalho de pesquisar na Web as capas dos álbuns estão limitados às paupérrimas compressões (quase sempre em .jpeg) das mesmas, deixando irremediavelmente de fora da sua fruição os elaborados grafismos que povoavam o interior e o verso dos LPs.

Se tivermos em conta o facto de David Bowie ter sido, ainda antes da viragem dos milénio, dos primeiros músicos a ter percebido e utilizado as potencialidades da Web, penso que a minha interpretação do significado da capa é, no mínimo, plausível.

Anúncios

2 comentários a “David Bowie: O Dia Seguinte

  1. Pingback: Sobre a difusão videomusical na Web Social (parte II) | mv flux

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s